terça-feira, 28 de abril de 2015

MUITA SAÚVA E POUCA SAÚDE


Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são. Ficava ecoando esta frase em sua cabeça, careca sem saber se pelo tempo ou pela máquina que diariamente durante os últimos 30 anos vinha fazendo. Sem errar um dia, todos os dias, todos os santos dias, como costumava dizer seu avô quando dormia com ele, e ele tinha de acordar. Fecha os olhos e sente uma daquelas tantas manhãs das férias em que o dia inteiro era só deles dois. Acorda desse delírio com os berros da televisão mostrando os últimos cálculos de um grande rombo na contabilidade do país, muito são os suspeitos e muitas são as provas e muitas são as defesas. Mais um roubo sem solução, sem ressarcimento aos cofres públicos, e todos, todos, inclusive ele que parou para ver a notícia sofreriam as consequências, e repetiu para si: muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são. Um par de olhos salta pela janela do apartamento para verificar se o dia oferece condições para uma caminhada. Lento outono. Já na calçada ouve a sirene da ambulância que chega a toda velocidade no hospital que é seu vizinho, assiste a cena incrédula, mas não seria a primeira, nem seria a última, o hospital de pronto socorro é seu vizinho, e apesar de ser um ótimo hospital, já não dá mais vazão, já não é só a ambulância, são ordas de mal trapilhos, doentes, gemendo pela rua, quase tornou impossível de caminhar, volta para casa. Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são. Desligou a televisão. Pensou em caminhar, mas isso implica em sair para rua, o que não é recomendável, assaltos a qualquer lugar, como se não bastasse nossos governantes, pensou. Voltou para a cozinha e fez pipoca, sentou-se próximo da janela, onde observava ao longe o hospital de pronto socorro, que possuía um imenso prédio bem próximo, lá do morro podia até perceber e sentir, sentia pena de quem morasse próximo desse hospital, talvez tivesse a mesma visão que tem ali naquela favela, pobreza humana. ps.MacunaímaTaisLusoMariodeAndradeBrasilsaúdehospitalteleviãotelejornalcompaixãoamor

segunda-feira, 20 de abril de 2015

INSTINTO


Estava feliz, com um sorriso no rosto e fones de ouvido no volume máximo e não percebeu o carro que se aproximava em alta velocidade, sendo atropelado. Acordou no hospital, após trinta longos dias para a família, um minuto para ele. Sua mãe abriu um grande sorriso, indo para abraça-lo, ao que ele perguntou quem era ? Quem era aquela pessoa ? Quem eram aquelas pessoas ? Quem era ele ? Dormiu novamente, com os batimentos cardíacos lentos, muito lentos...agora estava perdido, tirou os fones, que tocavam Cranberries a todo volume, para ver se identificava algum lugar conhecido, algum ponto de referência para seguir. Parou. Para onde iria ? O que faria de sua vida, agora que não tinha mais uma. Pensou em Deus, olhou para o céu e achou tão distante, não adiantaria gritar, pedir, implorar. Deus não o ouviria. Fechou os olhos e entoou um mantra, mas não lembrava mais, não era mais ele. Um carro passa veloz e buzina, ele olha como que procurando uma resposta para uma pergunta que ele nem sabia qual era. Continuou a caminhar sem rumo, não conhecia aquelas pessoas que passavam por ele, mesmo tendo morado toda a sua vida naquela cidade. Caminhou sem rumo, até parar para atravessar um um enterro que acontecia naquela rua. Ficou observando, quando então percebeu que conhecia aquelas pessoas, aquela mulher de negro, junto ao caixão, que chorava copiosas lágrimas, não acreditou, era sua mãe. Correu para junto dela, mas não conseguia chegar, tantas eram as pessoas. Mas pode ler na fixa que trazia uma coroa de flores amarelas, suas prediletas, estava escrito seu nome. "So take my hands and come with me We will change reality So take my hands and we will pray They won't take you away They will never make me cry, no They will never make me die" The Cranberries (Animal Instinct)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

UMA CÁPSULA PROTETORA


"E como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora", fiquei dentro de casa, entrei para dentro de mim e fechei os olhos, portal que me liga ao mundo real, real e cruel. Um casulo de Emilie, uma concha de caramujo, a barriga da mãe canguru, minha segunda pele. O Sol pode me reduzir a pó, como um vampiro velho ou uma pedra de gelo. Assistia ao céu e via três pássaros brincando de voar, espiava por entre as cortinas escuras daquele quarto, enquanto passavam os dias, enquanto passavam as noites. Uma casca dura como a das árvores, inciando pelos pés, como raízes de um velho Buendía, cravando-me ao chão, camuflado no meio da mata, sonhando com o quarto fechado, as cortinas escuras. Por muito tempo permiti que dirigissem minha vida, deixando chegar aqui na beira deste abismo. Não, nunca fui capaz de despertar o amor, este mesmo que infesta nossas vidas, nos cinemas, livros, nos poemas de amor e sobre tudo na televisão. Vende-se e compra-se amor...prefiro a solidão libertária de minha hibernação, prefiro o calor dos cobertores, aninhado na cama, do quarto fechado, das janelas de cortinas escuras, todas fechadas. Prefiro, mas não há escolha, apenas o tempo para cicatrizar as mágoas, as dores de um aborto eterno, o silêncio de uma solidão forçada. Eu não prefiro nada, apenas ficar aqui fechado em mim, esperando que o tempo faça seu serviço.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PODERIA TE DIZER


Poderia te dizer muitas coisas, afinal faz tanto tempo que não nos falamos, desde antes de nos tornarmos virtuais, de nos separarmos para sempre. Sinto falta dos nossos dias de glória juvenil, de músicas, livros e risadas. Deixarei minhas lembranças sobre a cômoda, junto aos bibelôs de minha falecida tia...ouço o eco do passado, corredores, escadas e provas e aulas e nosso olhar perdido entre um poema e outro. Tinhas dificuldade em absorver a cultura nacional, preferindo os ingleses. Não sei mais o que te diria se estivéssemos cara a cara, ou e-mail a e-mail. Quando tiver coragem te desafiarei a não olhar as estrelas...nem por um segundo imaginas a estrago em meu coração, hoje cicatrizado. Sairiam palavras bonitas, livres, puras e saudáveis, palavras de amor, ou um longo abraço virtual. Também palavras de dor, saudade, dor, dor, dor...duas crianças correndo no pátio, pulando o muro e invadindo o campo mágico, ao lado da casa. Lá sim, lá voávamos e esquecíamos que o futuro era breve, e que logo seria passado, como estou lembrando agora. Te falaria do mundo, das mazelas, das meninas sequestradas na africa negra, dos atentados no museu, dos estudantes desaparecidos no México, mas acho que isso não te interessa, teu mundo é frio e solitário, como o meu, mas eu te amei e tu não conseguiste me amar...Poderia te dizer muitas coisas, mas não te digo nada, não te digo nada.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

POR QUE ESCREVO ?


"Houve um tempo em que achei belo um poeta dizer que escrevia pela razão por que uma árvore dava frutos. Só bem mais tarde descobri ser um embuste aquela afetação: o homem, por força, distingue-se das árvores e tem de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que há de dar, além de investigar a quem se destinam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres: e até envenenados." by OSMAN LINS

quarta-feira, 8 de abril de 2015

SAÍDA DE EMERGÊNCIA


O que esperar quando tudo está perdido? não tem o que esperar, porque nada está perdido. Nunca tudo estará perdido quando se tem um amigo, quando se tem Deus. Mas as pessoas provam o contrário não sendo solidárias, mas existem pessoas que provam justamente o contrário, estendem a mão. Amigos. Peça rara nos dias de hoje, mesmo com a internet, ou apesar da internet...ainda não sei o peso da internet nas relações, apenas experimento sentimentos novos, tão ou mais intensos que os supostos reais. Tenho experimentado este sentimento. E agradeço a Deus. Sei que não estou só, mesmo aqui no fim do mundo, onde ninguém mais quer estar, e quem pode, vai embora. Não, não estou só aqui. E não estou só quando durmo, tenho sonhos...por um instante parei na beira de um abismo, podia jurar que estava só, me joguei, e Deus me amparou nos braços e me fez escrever este post. Tenho muitos medos ainda, mas nunca deixei de ir e vir em qualquer hora, em qualquer lugar (hoje, diria, menos Jair rs). Nos piores momentos sempre tendo a saída de emergência mais próxima. Diria Pitty: ”Tenta achar que não é assim tão mal, exercita a paciência, guarda os pulsos pro final, saída de emergência.” Mas sobrevivi ao abismo e continuo vivo, com os pés no chão. Não estou só. Tenho amigos. O que esperar, senão um dia após o outro, bem dormidos, bem vividos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

CASULO (Emilie Dickinson e Ivo Bender)

A quem pertence esta casa terrosa? Tabernáculo ou tumba, Ou domo de um verme, Ou varanda de um gnomo, Ou catacumba de algum elfo?

BESTA


INFINITAS ESCADAS

O que eu fiz de minha vida, que porcaria eu fiz, como pude fazer estas escolhas,porque ninguém me disse nada. Viver é arriscado demais. Morrer dói. Um caminho de flores do campo a beira da estrada e um vulto com mochila e olhar perdido segue em frente. Não existe mais civilização por anda anda, uma vegetação ora densa ora parecendo savana africana, campos; mas agora esta flores no caminho...pétalas de rosas na cama para nupcias, pétalas enfeitando o defunto no caixão, pétalas de margaridas enlatadas, valha-me Caio Fernando Abreu. Eu sei o que fiz da minha vida e só eu posso fazer algo para salvá-la ou não...poderia amar as pessoas como se não houvesse amanhã, mas Renato Russo já morreu. Acender uma vela e assisti-lá extinguir-se por completo, até a última chama, até a última esperança de luz no final do túnel que é um trem bala a toda velocidade vindo encontrar-me, e o pior de tudo é cruzar durante as subidas e descidas das infinitas escadas, a pena eterna.

SINAL

Não estou com paciência com ninguém, nem comigo, só para minha mãe que começa a dar os primeiros passos rumo a senilidade e ao esquecimento. Meu porto seguro naufraga. Deixarei a luz do dia banhar-me pela última vez, a partir de então estarei no escuro, na noite fria e triste e solitária como a Lua. Caminharei a última vez nesta rua, que na verdade nunca andei. Longos passos passados e enterrados. Não gosto do bom gosto, diria Adriana Calcanhoto. Não choro, os remédios me paralisam, e as pessoas, as pessoas continuam suas vidas. Não é assim que se faz, logo após os enterros. Fiz isso quando enterrei meu pai, não suportarei fazer isso com minha mãe, ela me ama, a única pessoa que eu sei de verdade....................não estou mais conseguindo escrever, mas quero dizer que este blog tá estranho, não consigo formatar, colocar uma imagem que eu realmente queira, mas tudo bem, talvez seja um sinal.

EQUÍVOCO

Impressionante a imagem do helicóptero caindo ao chão, completamente desgovernado, cinco pessoas morreram. Assim me sinto, não morto, desgovernado, desorientado caindo ao chão. Não como as folhas secas de outono, mas como o helicóptero. Todos os sentimentos se misturam numa profusão de cores e odores e olhares e conceitos e preconceitos. “Viver é bom, nas curvas da estrada”. Equívoco, sempre achei minha vida um, mas agora transcendeu. Como pude fazer isso comigo, acho que não aprendi a gostar de mim ainda, como pensei. Onde vim parar, para onde vou. Existem dois rios que banham esta cidade. Gosto de rios, eles nos protegem contra tempestades. Cinco minutos é o tempo da morte por afogamento. “Existem cinco minutos dentro de um cigarro”.. Inferno astral diria um desavisado sabendo que logo faço aniversário, mais um passo para a morte, é natural. Impressionante o co-piloto assassino de 150 vidas jogadas do céu contra as montanhas. Eu não estaria dentro daquele avião nem na Universidade no Quênia onde 140 jovens cristãos foram mortos, em nome de um deus mau, de um profeta maldito, por homens loucos com e pelo poder. Equívoco. Não, isto aconteceu no continente africano. E morremos no trânsito...de bala perdida é o último grito da moda, de dor...enquanto isso o povo brasileiro é amaldiçoado por uma política destruidora, que a cada instante arranca o pouco de vida que nos resta. Cansei de enterrar tanta gente neste curto espaço de palavras, estou cansando de caminhar, subir escadas, de ter fé, estou cansando de esperar por uma morte natural, pois já destruí minha vida com os últimos passos que dei. Impressionante o céu tão próximo de minha cabeça, e o inferno tão abaixo dos meus pés.