O ano
passou. Talvez rápido demais ou talvez não tenha
percebido, encolhido em meu casulo, distante de tudo, distante de
todos. Como um estranho no ninho, não podendo ir embora, me
afasto, me isolo, não ouço, não vejo, não
falo...para minha proteção enquanto isso, o corpo de
baile dança no palco, acima de nossas cabeças. A Morte
do Cisne. A morte do dia em que cheguei aqui. O ano passou, mas não
passou minha angústia, minha insonia e meu coração
em pedaços. Sentado em meu canto, lutando com a cibernética
instalada para eu trabalhar ou para me espionar...cortaram a música,
tenho medo de perder meus dedos no teclado do computador, mas sigo
adiante, dando meus dedos a tapa ou à guilhotina que Maria
Antonieta perdeu a cabeça. O ano passa e estamos no Natal,
aniversário de Cristo, mas ninguém lembra disso, apenas
das festas dionisíacas, com muita bebida, comida e falta de
fé. O ano passa, governos são derrubados, e os que
tomam conta, se apresentam bem piores, mais sanguinários,
mais cruéis e burgueses. E o povo ? O povo passa fome o ano
inteiro e e´sacrificado como o aniversariante do Natal, o ano
inteiro. O ano passa e todos me abandonaram a minha própria
sorte ou azar. Os amigos distantes se ocupam com os seus e eu
gostaria de estar no ventre de minha mãe, como um canguru,
como um feto protegido pela placenta, sem pensar, sem sonhar. Pura
proteção tenho certeza, minha mãe não me
abortaria, não me abortou e estaremos juntos no Natal,
abraçados, vendo o ano que passa, este ano que passou.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
TRISTE POSTAGEM
Sempre
achei triste postagem sem comentário. Depois li: faça
um blogueiro feliz, comente. Hoje acostumei a viver só no
mundo e na internet. Estamos ocupados demais com o que nos cerca.
Está tudo muito veloz, embora a rotação do
planeta não esteja. “Quem é o inimigo, quem é
você ?” Enquanto isso em Alepo, um resto de cidade na Síria,
continua matando seus moradores, destruindo o que ainda está
de pé e desplantando os jardins que eram cultivados dentro de
casa, por crianças inocentes. No Brasil a morte banalizou,
pisamos em cadáveres na rua, falamos ao celular enquanto
dirigimos, jogamos lixo em qualquer parte e não amamos, nem
respeitamos o próximo. No meu mundo real a dor é real.
No mundo virtual, recebemos o esquecimento rápido, face as
novas e últimas novidades, que tem pressa, urgência para
impactarem e desaparecerem como se nada fosse feito. Enquanto isso
falamos de amor, dias felizes e memórias vagas. Falar no
sentido metafórico, não nos falamos, apenas postamos e
esperamos que alguém pare em nosso blog e diga olá, que
belo, que bom...”mas as pessoas na sala de jantar São
ocupadas em nascer e morrer” . Enquanto eu choro minha pitangas egocêntricas, Alepo caminha a passos largos para mais um genocídio e a destruição total.
DESCE O CREPÚSCULO
Cocktail Party
Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez
de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca…
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês
uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a
vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
em todas as poças d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez
de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca…
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês
uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a
vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
em todas as poças d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!
by Mario Quintana
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
PÚBLICO E PRIVADO
Segunda-feira
de um dia no hemisfério Sul
Aos
que tem um trabalho, cuidem bem dele, pois o exército de
reserva, nunca esteve com tantos cidadãos, e nunca estivemos
com uma percentagem de povo vivendo na linha da miséria, 30%
de 200 e tantos milhões de brasileiros. E eu tenho meu
trabalho e agradeço a Deus por isso... pois era uma
segunda-feira de fim de primavera, expectativa para o verão.
Será o mais quente dos últimos tempos ? Não sei,
tudo indica, os Pólos estão derretendo. Estou
chegando no trabalho, e começa o atendimento determinado
horário, com algumas pessoas na frente do prédio
esperando para ver suas coisas. Segunda-feira eu quase um zumbi
chegando no prédio, absorto, em silêncio; eis que
passando pelas gentes ouço meu nome sendo dito em voz alta e
firme: Bom dia Jair, não se usa mais dizer bom dia ? Pausa
Dramática. Paro e acordo, literalmente. Uma senhora que
estava junto das pessoas que eu passei no meio está me olhando
inquisitiva, falando em tom alto, como se eu não quisesse dar
bom dia. Olho pra ela, e peço desculpa, não a vi, alias
eu não estava vendo ninguém. Então acordo assim,
como se estivesse cometendo um pecado ao não vê-la, me
repreendendo, me chamando a atenção - ainda não
lembro quem é esta senhora. Poderia lhe dar um milhão
de explicações por meu ato falho, em não dar bom
dia. Mostra meu lado mal educado também, completamente
diferente do eu que atende as pessoas, as informa, e não se
satisfaz em dizer não, procura sempre uma saída, um
encaminhamento. Minha mãe me ensinou assim, quando alguém
pede uma informação, devemos nos esforçar para
dar o melhor da gente, pois poderíamos ser aquela pessoa
perdida...fiquei um tanto constrangido, parado, e incrédulo,
no portão, que permanecia fechado para eles, e não para
os funcionários. Eu era um funcionário. Segui adiante,
com aquele pensamento martelando durante todo o dia. Em compensação,
não vi mais aquela senhora, ela não apareceu na minha
sala e pude atender bem, como de costume, as pessoas que ali aportam.
"Nosso dia vai chegarTeremos nossa vez
Não é pedir demais:
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão"
Não é pedir demais:
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão"
by Legião Urbana
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
DORINHA MEU AMOR...
Na boca
Sempre tristíssimas essas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca!Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados
Dorinha meu amor....
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
- Na boca!Na boca!
by Manuel Bandeira
Sempre tristíssimas essas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca!Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados
Dorinha meu amor....
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
- Na boca!Na boca!
by Manuel Bandeira
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
UM POETA DEIXOU O PLANETA
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
by Ferreira Gullar
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
ENTRE AS LÁPIDES
Dentre todas as Almas já criadas -Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -
Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -
Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -
Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -
Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!
by Emily Dickinson
(Tradução: José Lira)
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