quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OLHAR O BRASIL DE LONGE

Resultado de imagem para jean wyllys
...GQ Brasil: O fato de hoje olhar o Brasil de longe modificou o seu olhar sobre o país? Tomar distância ajudou a compreender melhor o que estamos passando?
Jean Wyllys:
 Eu vi as duas faces desse país. Somos um povo alegre, cordial, feliz, temos uma resistência impressionante, fazemos baticum do batente, temos uma música vigorosa que não encontra paralelo no mundo... Nós somos isso. Mas existe uma face de nós que estava recalcada. Que nação é essa que se incomoda com o fato de que as famílias pobres recebam 70 reais por mês através do Bolsa Família, que chama de bolsa-vagabundo um valor que tanta gente gasta numa única noite num bar? Que nação é essa que não reconhece a vulnerabilidade da população preta moradora das periferias, que não reconhece que a justiça brasileira tem lado, que não vê que a população carcerária é em sua maior parte preta e pobre? Todo o processo de redemocratização do país nos governos FHC e principalmente nos governos Lula interpelaram o que temos de melhor em nós. Botamos para fora aquilo que faz com que o mundo goste da gente. Nós mesmos nos víamos como pessoas bacanas. A economia indo bem, a gente partindo para o quase pleno emprego, luz para todos, ingresso na universidade geraram uma onda de felicidade. Venci o BBB em 2005 muito nessa onda de felicidade. O país estava feliz e logo estava aberto à diversidade. Naquele tempo foi possível eleger um nordestino gay, professor.
GQ Brasil: A onda conservadora coincide com a crise econômica...
Jean Wyllys:
 Quando veio a crise econômica em 2013, tudo o que estava recalcado veio à tona. Nosso racismo, nossos 350 anos de escravidão, nosso machismo católico, intolerante... Todo o freio foi retirado. A metáfora é Brumadinho. A barragem que se rompe e engole a cidade com rejeitos é a metáfora do que o brasileiro viveu dentro de si. O preconceito que estava represado explodiu tomando conta de tudo, encontrando na figura do presidente um catalisador. Eu não me reconheço nessa nação, mas também não vou negar que essa nação existe e que ela ganhou as eleições. Ganhou com mentiras, mas ganhou.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

TODAS AS FLORES NO TEMPO SE DOBRAM EM DIREÇÃO AO SOL

Jeff Buckley e Elizabeth Fraser
Jeff Bucley e Elizabeth Fraser


Meus olhos são 
Um batismo
Eu sou fusível
E cante ela
Nos meus pensamentos
Oh coisa fantasma indescritível

Oh, todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um, mas aqui está um ...
Aqui está um

Aaah
La da dada ...

Oh, todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um, mas aqui está um ...

Continue indo em mim, viajante perverso
Desvanecendo-se mais de mim
Com seu rosto no brilho da minha janela
Onde você vai chorar por mim?
Salgueiro doce

Tudo bem estar com raiva
Mas não me machucar
Sua felicidade
Sim Sim Sim
Querida, querida, querida
Oooh ...

Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Todas as flores no tempo se dobram em direção ao sol
Eu sei que você diz que não há ninguém para você
Mas aqui está um
Mas aqui está um
Mas aqui está um ...


by Jeff Buckley

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

AUSENTE

Imagem relacionada

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

 "Farewell". Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

CÉU INFINITO

Resultado de imagem para CÉU INFINITO
Olhando pela janela, consigo ver os campos ao longe, e no céu, nuvens em perspectiva. Tão lindo, o dia claro, um Sol morno invernal e mesmo assim, aquecendo os corações congelados, que não sabem amar. Muitas lágrimas se apertam no corredor da saída para os olhos, que estão secos, opacos e distantes, olhando pela janela. Podes me chamar, que não ouvirei, nem quando tocas minhas músicas favoritas, aquelas de amor e morte e perdição. Mas consigo arrancar um sorriso meio torto de mim mesmo, quando um pássaro quase bate na janela que estou, se assusta e voa alto...quando então sou abandonado, tentando chamar no infinito, alguma paz para minha vida, meu coração. Poderia sair e me divertir em algum bar ou praça, mas as pessoas estão preocupadas demais em ganhar dinheiro, eu também deveria, mas não tenho a mesma sorte dos afortunados. Vejo campos ao longe e não consigo ver as flores do meu jardim, como os outros, vejo a alma mal formada das crianças, que aprendem com seus pais a odiar o próximo e amar só a si mesmo. Não consigo mais olhar dentro de mim, não aguento mais ver angústia, dor e solidão...ficarei aqui, catatônico, olhando o nada pela janela, ou o céu infinito.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

CAMINHANDO MEUS SAPATOS

    Resultado de imagem para CAMINHADA DE COMPOSTELA
    curiosidade no caminh de Santiago

"Caminharei os meus sapatos em Copacabana
Atrás de livro algum pra ler no fim de semana
Exercitar aquela velha ótica sartreana
Vendo o maxixe falso da falsa loira falsa bacana"


by Vitor Ramil

Caminhando meus sapatos pela rua, deparo-me com um mural anunciando os mortos da cidade. Tomei por hábito, todos os dias ler e despedir-me dos que partem. Há muito tempo faço este caminho, há muito tempo viemos morrendo, um pouco a cada dia, às vezes só um. É quando Penso em mim, assim como na vida, estarei só na morte também. E quem vai ler meu obituário ?  com uma fotografia provavelmente mais jovem, não existem muitas fotos minhas por aí, minha baixo estima nunca me permitiu self, ou algum exibicionismo. Mas vivo bem assim, na companhia de cães, remédios antidepressivos e livros. Minha alegria artificial. Melhor que chorar sem motivo. Chorar só é bom no escurinho do cinema, ou quando acordamos, pois deveríamos chorar de alegria e agradecimento, depois sorrir, por estar ainda vivo. Do outro lado da rua do mural, existe uma pracinha, com brinquedos. Gosto de sentar aos sábados por alguns instantes, para apreciar a alegria gratuíta das crianças, só um pouco, pois estas, as crianças, são sinceras demais e podem me ver e falar da solidão daquele tio. Eu. Embora só, por vezes não gosto de olhares inquisitores e preconceituosos. Um homem só. Deve ser um infeliz. Pode ser uma ameaça, louco. Daquele jeito nunca terá ninguém.................E não quero, pois ninguém pertence a ninguém. Ninguém é de ninguém homem estrangeiro. Osso. Boneca, Tapete persa. Acabou meu tempo, preciso seguir, ainda estou vivo, só e caminhando meus sapatos por aí.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

QUANTO

  •  Resultado de imagem para floresta amazônica
  • Chegando neste porto, que não é seguro, lançarei âncora por breves instantes ou a eternidade de Camões. Ele é eterno. Caminharei meus sapatos, com passos firmes, mas lentos, absorvendo o impacto. Silenciando a cada batida de salto no asfalto...Do alto se vê a baía, as pessoas pequeninas, ao longe. Apropriação indébita de palavras, direitos autorais, Vitor e Nei. Sigo adiante, galopando campos, pampas, planícies, florestas. ? Cadê a floresta que estava aqui ? ainda nos perguntaremos ao darmos conta que nada fizemos contra a ganância, sendo corrompidos pela indiferença, constataremos a  inexistễncia da Amazônia. Assim como na ditadura, sumiram tantos, tantas, perdidos até hoje. Na atual circunstância política, moral, existencial, resta-nos o silêncio. Então quando abrir-mos a boca, estaremos mudos, não teremos mais prazos, nem minutos. Isso será só o fim. Enfim.  Desde minha chega a este  porto, muitos portugais e áfricas fizeram meu caminho passado. Cantarei fados, evocarei espíritos tribais, para que me digam, para que me calem, que me embalem nesta dança louca dos tempos, do tempo. Quantos portos ainda terei de ancorar minh'alma enfraquecida, para que enfim ela tenha seu descanso eterno ?