quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NÃO PENSO TER A VIDA INTEIRA


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FOGUEIRA


Por que queimar minha fogueira
E destruir a companheira
Por que sangrar o meu amor assim
Não penses ter a vida inteira
Para esconder teu coração
Mais breve que o tempo passa
Vem de galope o meu perdão

Por que temer a minha fêmea
Se a possuis como ninguém
A cada bem, do mal, do amor em mim
Não penses ter a vida inteira
Para roubar meu coração
Cada vez é a primeira
Do teu também serás ladrão

Deixa eu cantar
Aquela velha estória, amor
Deixa eu penar
A liberdade está na dor

Eu vivo a vida a vida inteira
A descobrir o que é o amor
Leve pulsar do sol a me queimar
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não

Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor

Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não

Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor

by Angela Rô Rô

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

SEGREDO



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Poderia guardar todos os meus segredos nesta página internética, mas não restou nenhum que desperte algum interesse. Aquelas pílulas estão enchendo meu estomago e não sei se são digeridas ou só se acumulam dentro da gente mutando nossas vontades e pensamentos, nossos quereres, citando Caetano. Tento vasculhar bem no fundo de mim, se encontro algo esquecido e que valesse a pena contar, mas não. Esta tudo vazio ou parado. As pílulas vão se armazenando entre os órgãos, mas todas fogem do coração. Na autópsia de um grande astro encontram elas, as pílulas inteiras dentro dele, mas já sem vida, sem sentido. Voltando aos segredos, tenho de confessar, contei ao vento o último, que se encarregou de espalhar ou terminar, como quando jogamos restos mortais em pó no oceano ou do alto de um penhasco. Melhor virar para o lado e tentar dormir e não sonhar, esta é a regra das pílulas, não sonhar. Adormeço e nas trevas da madrugada sinto o beijo de minha mãe e suas mãos puxando o cobertor, para que eu fique mais aquecido.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

UM ESQUECIMENTO, UM ECO, UM NADA

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Jorge Luis Borges


Sou


 Sou o que sabe não ser menos vão
 Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

by Jorge Luis Borges


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

AMOR INCONDICIONAL


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IPÊ ROSA - OUTUBRO ROSA

Estava eu atrasado, como de costume, mas cheguei há tempo na rodoviária para embarcar no ônibus que me levaria até minha mãe, que não estava passando muito bem. Minha poltrona é ao lado de uma simpática senhora, que me sorri quando peço permissão para sentar ao lado dela. Era setembro, em plena floração dos ipês, árvore que gosto muito, principalmente os ipês amarelos. O ônibus parte, meu coração apertado, ansioso para ver minha mãe. Acabo por adormecer, me acordando com um movimento brusco do ônibus. A senhora do meu lado sorri. Devolvo o sorriso e brinco dizendo que sonhava com aquelas árvores que se estendiam como um imenso túnel de ipês amarelos. Ainda em meio ao sorriso olho para a rua, e me encanto com o que vejo, um túnel de ipês amarelos, meus favoritos. Falo com a senhora admirando os ipês, mas percebo que ela nem liga. Não consigo me conformar, que alguém não ache bonito esta árvore (se bem que gosto é gosto, não se discute). Ela se vira para meu lado, e vendo minha decepção por não concordar comigo e o resto do mundo, começa a me contar seu trauma com ipês... ela me contou que tem filhos, e a caçula na época do ocorrido era bem pequena e sofria de alergia, e na quadra dela, na rua, todos se orgulhavam desta bela árvore que no final de agosto já começa a parecer. Já em setembro, olhando do meio da rua percebe-se uma bela perspectiva, afinal era primavera, a estação das flores, dos amores. Mas sua filha sofria muito com a árvore de ipê na frente sua casa, e crescia para dento do pátio chegando até a janela do quarto da menina, que era chamada de rena do nariz vermelho pelos irmãos. Ela não aguentando ver o sofrimento da filha, pediu ao marido que cortasse aquela árvore na frente de sua casa. Ele já havia feito várias solicitações para ser autorizado para cortar árvore. Bem, estamos no Brasil, onde a máquina pública, até funciona, mas numa lenta, quase parada burocracia. Não aguentando mais ver o sofrimento da filha, resolveu por conta própria cortar as dita árvore. A essas alturas eu já estava quase chorando de pena da pobre árvore, que estava com seus dias contados. Contratou um senhor que fazia o serviço e possuía uma condução, combinou com ele uma manhã bem cedo e cortou a árvore, já colocando seus restos mortais no carro do lenhador, que com uma pequena serra elétrica fez o serviço e deu sumiço na árvore...ela disse que sofria varrendo a calçada, e se chovia ficava perigoso, podendo resvalar nas flores coladas no chão. Eu já quase chorava pela árvore agora morta e sumida. A vizinhança não percebeu, o marido não acreditou, aliás nem havia percebido quando chegou em casa. A viagem continuou, ela pegou no sono e eu ali, pensando, sofrendo por uma árvore que nem conheci. Mas tirei uma grande lição, uma mãe é capaz de tudo para proteger e criar com segurança e saúde seus filhos. Como ninguém percebeu, a rua continuou florindo seus ipês todo final de agosto, menos na frente daquela casa, da menina do nariz vermelho, que não ficava mais vermelho entre agosto e setembro.

ps. Este amor que a pessoa/personagem tem  pela filha é incondicional, nada poderia fazer sua filha sofrer, o que me leva a pensar em minha mãe, único amor verdadeiro em minha vida. Esqueci do Teimoso (meu   cão que adotei) que está me ensinando a amar de novo, que é possível meu coração ainda bater forte e descompassado como dos apaixonados.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

NAS MANHÃS DE SETEMBRO

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Manhãs de Setembro

Fui eu quem se fechou no muro e se guardou la fora
Fui eu que num esforço se guardou na indiferença.
Fui eu que numa tarde se fez tarde de tristeza
Fui eu que consegui ficar e ir embora.

E fui esquecida
Fui eu
Fui eu que em noite fria se sentia bem
E na solidão sem ter ninguém fui eu
Fui eu que em primavera só não viu as flores
e o sol
Nas manhãs de setembro.

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar o vizinho a cantar
Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar o vizinho a cantar
Nas manhãs de setembro
Nas manhãs de setembro
Nas manhãs de setembro
Nas Manhãs...

by Vanusa

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

PONTES DE VIDRO SUBTERRÂNEAS


Os subterrâneos da ponte de vidro. Uma ponte que tenho de atravessar todas as manhãs e olho através do vidro o penhasco que me espera lá embaixo, cheio de pontas e pedras. Sempre rezo antes de atravessar a ponte de vidro, sigo lentamente vendo meu fim lá embaixo, caso um passo em falso trinque o vidro que partirá em mil pedaços. Nos subterrâneos abaixo da ponte de vidro, as rochas que me escondo até amanhecer e ter de atravessar a ponte. Um risco de vida todo o dia...já fechei os olhos atravessando, mas sentia a espada de um pirata nas costas, e a ponte de vidro que não via, transformou-se em uma tábua rumo ao mar, onde agitados tubarões com fome, até parece que sorriem ao abrirem as imensas bocas, cheias de dentes, esperam ansiosos para me devorar. Há perigo sempre, até no olhar que não me quer aqui ou ali. Há perigo no amor que morre, que mata, que sangra manchando meus passos sobre a ponte de vidro.

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Lançando-me lentamente ao espaço, deixando a gravidade fazer seu trabalho. Não há milagres para esperar, meu corpo é um nada na imensidão do nada e que meus subterrâneos sempre estiveram ali, dentro de mim, mesmo quando olhava para dento não conseguia ver. Agora é muito claro, ou escuro e vejo os vasos sanguíneos na terra, no subsolo de minha pele. Enquanto a gravidade faz seu trabalho vejo a ponte de vidro estilhaçando e vindo em minha direção, mas agora é tarde para me cortar, secou o sangue, e a Terra irá me engolir.


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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CAMINHAR E PENSAR


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Caminhar e pensar, esquece o cansaço e olha muito as calçadas por onde pisa, os jardins dos casarões perdem seu ar sombrio em setembro, as flores brotam e saem daquelas paredes, daquele chão, em que cheguei a não acreditar que veria margaridas outra vez na vida. Vi. Acho a flor mais enigmática, linda, ela me atrai, me chama, como se falasse comigo. Então vi minha primeira margarida no jardim daquele casarão. Travei. Parei, ela desabrochava...vontade de ficar ali só para ter o prazer de vê-la se abrir para o Sol, para meus olhos, mas não tenho muito tempo. Caminhar e pensar. Outros apressados como eu caminham, outros em seus carros, e mesmo assim apressados. O tempo é pouco ou desperdiçado na rotina obrigatória de sobrevivência. Mas como sofrer, com um Sol lindo na cabeça. Alguns parecendo eufóricos, outros discutem seriamente em conversa baixa, alguns ostentam bandeiras com números, poucos. Atmosfera perigosa no ar, sempre que houver eleições neste país, estarei desconfiando das palavras da própria sombra. Quero ter o poder de me surpreender na minha escolha, sem ranços, sem repetecos, quem sabe não é momento de algo arriscado e novo ? Penso nisso com certa melancolia. Caminhar e pensar. Retornarei pelo mesmo caminho, preciso ver aquela margarida ainda hoje...