segunda-feira, 17 de abril de 2017

O SORRISO DE MINHA MÃE


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Os dias sombrios tornaram-se claros, cristalinos no olhar de minha mãe. A cegueira que tomava conta foi atacada, e tivemos uma vitória linda nesta guerra que travamos todos os dias. Meu coração já andava cabisbaixo, diante das trevas que minha mãe vivia. A saúde pública neste país é vergonhosa...também, nossas autoridades roubaram tanto, mas tanto, que estamos em petição de miséria. E minha mãe que não tinha nada a ver com isso, aguardava silenciosa o dia que seria chamada para consultar um oftalmo, para lhe clarear a visão. Nada disso. Não havia tempo para atender o povo, o mesmo povo que colocou cada político a onde está. Mas tinham outras prioridades, como assaltar o país. Minha angústia, minha dor era maior a cada contato com ela. Abraçava-a, mas não podia emprestar meu olhar, só me restava abraça-la. Chegou num ponto que não mais suportei, quando tirei férias fui para casa, catei meus dinheiros e a levei numa clínica particular, após exames, era possível reverter a situação. Conseguimos, e passei a Páscoa mais linda da minha vida, olhando minha mãe me olhar, me vendo e vendo o mundo, este mesmo mundo que parece em estado ebulição nos quatro cantos da Terra. Mas éramos nós e a luz que emanava de minha mãe, o sorriso e o abraço, agora nos olhando, nos vendo. Pedi a Deus, por várias noites antes de dormir, pedia um milagre e ele me deu força e coragem e luz no meu caminho e ideias, que me permitiram pagar pela cirurgia. Hoje penso em minha mãe, e não sinto mais aquela dor no peito, aquela angustia...só sinto alegria ao vê-la andar, ao vê-la me olhar e sorrir.

sábado, 8 de abril de 2017

50 ANOS DE SOLIDÃO





               “Para muitos, 1967 foi o melhor ano da história do rock. Pode ser um exagero, mas certamente o rock viveu um de seus melhores 12 meses. Motivos para isso não faltam: os Beatles lançaram o disco que mudou o mundo, Jimi Hendrix apareceu, os Doors estrearam, o Velvet Underground colocou o seu primeiro álbum nas lojas, o Pink Floyd veio ao mundo, o Cream lançou a sua obra-prima. A explosão da psicodelia e do Flower Power fizeram do ano uma grande celebração na cronologia da música”

              Em 09 de abril desse ano (1967), eu nasci numa pequena cidade no Sul do Sul da América do Sul...tomei consciência da minha existência, alguns anos depois, dos primeiros anos, memórias perdidas, lembranças escassas na memória afetiva. Vinguei, diria meu falecido avô, e desde lá passaram-se 50 longos anos, ou rápidos, não consigo mesurar...”Você não sabe o quanto caminhei, para chegar até aqui...” 50 anos de Solidão, nem tão só, mas é um título poético deprê, que combina comigo, em boa parte destes 50 anos e faz uma alusão ao livro 100 anos de Solidão do Gabriel Garcia Marques, marcante em minha vida, dentre muitos. Estes, os livros, sempre foram parceiros e amigos presentes na minha existência. Minto também no título, por ter muitos amigos, muitos ao longo destes anos, mas todos temos nossas vidas, e não sabemos o que vai acontecer quando dobrarmos a esquina: seguimos nossos destinos e naturalmente, os caminhos se bifurcam, o mundo é tão vasto “mundo, mundo, vasto mundo, a se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Confesso que não sou bom em preservar amizades, fui chamado de pior melhor amigo, por uma amiga querida, justo por esquecer as datas de aniversário, o que é importante para ela. Ao contrário de mim, que sempre fugi nas datas de aniversário, anos em que passei só, longe da família ou amigos, esta amiga sempre fez questão da comemoração. Hoje sei e entendo e aceito, esta alegria de conquistar mais um ano, apesar de estarmos morrendo a cada segundo que passa, a partir do nosso nascimento. A luta da vida e da morte, foi o que sempre aconteceu durante anos...por enquanto a vida vence, e faço de tudo para continuar assim, uso remédios, pílulas para alegria, pílulas contra a ansiedade, pílulas para dormir, tudo com acompanhamento médico e terápico ; quando vejo a fragilidade do muro de vidro que construí para me proteger. “Sigo adiante, misturo-me a vocês...” ou me fecho no quarto, na tentativa de dormir e ter um sonho bom, fugindo da realidade dura e crua, vendo toda esperança deixar de existir, se esvaindo, como areia entre os dedos. “Feliz aniversário, envelheço na cidade; feliz aniversário, envelheço na cidade” Mas a maturidade que adquiri nestes anos, me faz ver uma possibilidade de viver melhor, entender melhor, ser um humano melhor, com falhas, mas muitos acertos. Retalhos, pedaços de um grande quebra-cabeça, onde peças importantes não se permitiram encaixar, tornando-me assim, incompleto, mas com o coração cheio de esperança, a mesma que pode se esvair entre meus dedos...se for como a canção: “ninguém consegue ser feliz sozinho” , estou condenado a eterna solidão (pausa dramática), fecho os olhos e vejo meu cão adotivo Teimoso, feliz ao me ver chegar. Meu coração consegue amar, apenas não teve chance, ou talvez a profecia ou maldição faladas um dia, se cumpra, quando chegar aos 57 anos...tenho medo de não existir para conhecer o amor de minha vida, enquanto isso, aceito de bom grado , a “parte que me cabe deste latifúndio ” feliz  aniversário para mim, feliz aniversário.
"Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
Com minha própria lei."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NÃO CABE NO POEMA


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Não há vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

 by Ferreira Gullar

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOSSO CAOS DE TODO DIA


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Acreditava que não podia piorar. As cenas eram terríveis quando chegou ao local, eram de dor e desespero, pessoas desmaiando, outros desesperados por não conseguir respirar e muitos espumavam pela boca, como cães raivosos, mas sem forças para atacar, apenas se contorciam no chão. Todos a espera de um salvador, qualquer um que pela mão os encaminhassem para um lugar sem guerra, sem morte prematura de jovens e crianças. Onde mulheres e velhos fossem respeitados, e os homens, honestos e trabalhadores. Mas por enquanto é só o que resta. As equipes de socorro tinham tantos para socorrer que era difícil reconhecer quem precisava mais e imediatamente de tratamento. No ar ainda podia se sentir aquele cheiro da morte e de gases venenosos, e ruídos ao longe que faziam tremer os já frágeis e semidestruídos prédios. No hospital, que mais parecia uma campo dos perdedores, após o fim de uma guerra. Mas fim é uma possibilidade remota e incerta. Em leitos improvisados, alguns até no chão, enfermeiros e médicos faziam o impossível para perder o menor número de vítimas civis. Mesmo assim, continuavam os ataques, que pareciam cada vez mais próximos do hospital. Vermelho era a cor que tomava conta, do cinza das pedras da rua, dos prédios semidestruídos e os destruídos, com certeza, vítimas mortas e agonizantes nos destroços, do que foi uma casa de uma família feliz um dia. Agora um amontoado de pedras. O ritmo é corrido no hospital, cada segundo pode custar mais uma vida. Acompanhando tudo, como se fosse um filme de terror e guerra, reza baixinho enquanto carrega no colo um menino encontrado desmaiado, com o corpo coberto de terra, para o hospital. Podia sentir o coração pulsando daquele pequeno corpo infantil. Quando estava sendo atendido, mais uma explosão, mas desta vez era no hospital. Então percebeu que podia ficar pior, muito pior.

quarta-feira, 29 de março de 2017

CONTAR ESTRELAS

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Quase cansei de te esperar, então resolvi contar estrelas e deixar que meus pés tocassem as águas do riacho que passa, como o tempo, como minha vida, como os amigos deixados para trás, e os que me deixaram. Agora eu sei que a distância e a internet não fazem muito sentido. Existe o abandono virtual, de quem escreve, de quem lê, de quem olha. As escolhas que fizemos ou deixamos de escolher, deixar fluir. Estou na estrela 1001, e quase adormeci. Uma verruga no dedo, diria minha avó, por apontar o céu estrelado. Meu inferno astral está chegando ao seu ápice, espero sobreviver depois disso, como sobrevivi até hoje. Estou só, isto é fato, mas não me queixo. De novo minha falecida avó, antes só do que mal acompanhado. Talvez seja eu a má companhia, talvez não tenha nada a dizer sobre minha vida, sobre as estrelas, como diria Olavo Bilac:



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? "

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas".

by Olavo Bilac

terça-feira, 21 de março de 2017

MEU AMOR SE MUDOU PRA LUA

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Paula Toller



Cai a tarde sobre os ombros da montanha onde me largo
O dia não foi, a noite o que será
Meus cabelos pela grama e eu sem nem querer saber
por onde começo e onde vou parar

Na imensidão do amanhã
meu amor se mudou pra Lua
Eu quis te ter como sou
mas nem por isso ser sua

Vou adiante como posso, liberdade é do que gosto
O dia nasceu, azul é sua forma
Já não quero mais ser posse, fosse simples como fosse
Um dia partir sem ganchos nem correntes

Façamos um brinde, façamos um brinde
à noite que já vai chegar
Façamos um brinde, façamos um brinde
ao vento que veio dançar

by Paula Toller 

segunda-feira, 20 de março de 2017

JORGE LUIS BORGES E A CEGUEIRA

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Jorge Luis Borges
...
Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.

Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.

O sr. já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem vai me molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém lhe ameaça de morte, você não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.
...

ps. O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985.

ps2. Estou travando uma batalha com a cegueira que tomou os olhos de minha mãe. Minha mãe sofre de diabetes e faz tratamento na Saúde Pública, mas não há oftalmologista, ou há, mas se leva anos, eu disse anos, para uma consulta. Minha mãe estava na fila, mas não suportei ver seu estado, que sobrevivendo de um AVC fraco, foi-se a visão e veio uma profunda depressão. Catarata nos dois olhos...tive de procurar clínica e médicos particulares, com bastante dificuldade, mas nada importa mais que a minha mãe me ver (egoísmo meu) e ver sua vida, que pulsa naquele coração generoso. Existe a possibilidade de reverter esta situação, embora seus olhos estejam tomados de catarata, um dos exames verificou que não há prejuízo nos olhos, podendo fazer a cirurgia.