Não
havia mais ninguém, a praça encontrava-se vazia, não
houveram aplausos, nem pedidos de bis. Na madrugada que amanhecia,
conseguia ver uma Lua que enfrentava um Sol nascente, não
querendo ir embora...mas todos já desistiram, e a Lua
desapareceu na luz solar. Restos de uma grande festa ou batalha,
divide espaço com ele e o vazio da praça. Nem sempre os
anjos da guarda estão de guarda, e é justo nestes
instantes, que desorientados, nos entregamos a esta orgia desenfreada
por sexo, dinheiro e poder. A ordem certa é o poder vir
primeiro. Caminha tropego pelas calçadas inundas, pára
na frente de uma loja em que os televisores estão ligados, e
se fixa numa tela, que contava a história de um país
distante, em que o povo vivia dentro de uma guerra, sem participar,
apenas serviam de escudo humano. Uma fumaça negra que mudava
ao sabor do vento, onde então podia-se ver crianças
mostrando as mãos sujas de óleo ou petróleo ou
sangue, e juntos mostravam dificuldade de respirar, e uma tosse de
moribundo. Pensou, olhando aquela cena, e vendo a praça
vazia e imunda, até gostou de ver o que via. Quando volta
olhar a televisão, as crianças sumiram mais uma vez no
meio da fumaça. Não havia mais ninguém.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
O CASTELO E O AR
Subir à
tona para respirar, como fazem os mamíferos que dependem da
água para sobreviver. Enquanto sobrevivo com as migalhas de
palavras, gestos e sinais dentro do castelo. Toda minha rotina, todo
o meu não ser, enquanto permaneço dentro do castelo
de Kafka e permaneço na biblioteca, onde me torno uma traça
que não come papel, mas lê. Da biblioteca vou atá
a masmorra, pensando seriamente em me jogar no lago que cerca o
castelo, cheio de crocodilos. Olho para a rua lá de cima e
vejo o pasto verde, árvores floridas não conseguindo
identificar, a não ser olhar, olhar. Poderia ser o pássaro
que quase alcanço com a mão, mas ele foge, ele voa. Se
eu pudesse voar, não estaria aqui, fugiria para as alturas,
faria um ninho e criaria meus passarinhos, ou, meus filhos com asas.
Mas o barulho estrondoso no porão, me chama a atenção.
Não identifico, se é humano, ou um animal, ou uma
máquina de tortura; mas quem estaria sendo torturado ? Melhor
voltar para a biblioteca e entrar em algum livro, em que o cheiro me
transportará para além das cercanias deste castelo,
preto e branco. Não encontro mais o caminho de volta, muitas
escadas a me confundir, salas, quartos e salões, deixam-me
tonto e cansado. Sinto que desço, agora sem minha vontade,
simplesmente desço, quase não conseguindo
respirar...devo subir à tona ou acordar...
HEAVEN KNOWS I'M MISERABLE NOW
Mas o céu sabe o quanto estou arrasado
agora
Eu estava procurando um emprego, e então eu
achei um emprego
E o céu sabe o quanto estou arrasado agora
Na minha vida
Por que eu dou tempo precioso
Para pessoas que não se importam se estou
vivo ou morto?
Dois amantes abraçados passam por mim
E o céu sabe o quanto estou arrasado agora
Eu estava procurando um emprego, e então eu
achei um emprego
E o céu sabe o quanto estou arrasado agora
Na minha vida
Por que eu dou tempo precioso
Para pessoas que não se importam se estou
vivo ou morto?
O que ela me perguntou ao final do dia
Calígula teria se envergonhado
"Você tem estado nesta casa há
tempo demais", ela disse
E eu (naturalmente) fugi
Na minha vida
Por que eu sorrio
Para pessoas que eu preferiria chutar no olho?
Eu estava feliz no nevoeiro de uma hora embriagada
Mas o céu sabe o quanto estou arrasado
agora
"Você tem estado nesta casa há
tempo demais", ela disse
by The Smiths
ps. The Smiths e Legião Urbana são as bandas que mais falaram da minha vida, deveria processá-los, mas me vingo publicando aqui no bloguinho...quando se descobre que o mar calmo que se navega, enfrenta uma tempestade (Tempestade - o disco da Legião que me traduz ), de um dia para outro, de uma falha até a outra, de um pedido de clemência até a forca. Mas não desta vez. Agora entendo o que meu terapeuta tenta me dizer, que meu psiquiatra sabe os remédios que eu devo tomar. Então ouvi esta música, continua linda para mim, mas eu chutaria um olho ou diria para Calígula que ele é um matador de criancinhas, se precisasse. Apenas vou me recolher dentro de minha escrivaninha de trabalho e trabalhar em silêncio, pois estou há muito pouco tempo por aqui, e eu cansei de minha vida nômade.
ps2. será sem comentários, pois é só um desabafo para meus remédios, e já me sinto muito bem.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
NÃO PENSO TER A VIDA INTEIRA
FOGUEIRA
Por que queimar minha fogueira
E destruir a companheira
Por que sangrar o meu amor assim
Não penses ter a vida inteira
Para esconder teu coração
Mais breve que o tempo passa
Vem de galope o meu perdão
Por que temer a minha fêmea
Se a possuis como ninguém
A cada bem, do mal, do amor em mim
Não penses ter a vida inteira
Para roubar meu coração
Cada vez é a primeira
Do teu também serás ladrão
Deixa eu cantar
Aquela velha estória, amor
Deixa eu penar
A liberdade está na dor
Eu vivo a vida a vida inteira
A descobrir o que é o amor
Leve pulsar do sol a me queimar
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não
Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não
Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor
E destruir a companheira
Por que sangrar o meu amor assim
Não penses ter a vida inteira
Para esconder teu coração
Mais breve que o tempo passa
Vem de galope o meu perdão
Por que temer a minha fêmea
Se a possuis como ninguém
A cada bem, do mal, do amor em mim
Não penses ter a vida inteira
Para roubar meu coração
Cada vez é a primeira
Do teu também serás ladrão
Deixa eu cantar
Aquela velha estória, amor
Deixa eu penar
A liberdade está na dor
Eu vivo a vida a vida inteira
A descobrir o que é o amor
Leve pulsar do sol a me queimar
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não
Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor
Não penso ter a vida inteira
Para guiar meu coração
Sei que a vida é passageira
Mas o amor que eu tenho não
Quero ofertar
A minha outra face à dor
Deixa eu sonhar
Com a tua outra face, amor
by Angela Rô Rô
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
SEGREDO
Poderia
guardar todos os meus segredos nesta página internética,
mas não restou nenhum que desperte algum interesse. Aquelas
pílulas estão enchendo meu estomago e não sei se
são digeridas ou só se acumulam dentro da gente
mutando nossas vontades e pensamentos, nossos quereres, citando
Caetano. Tento vasculhar bem no fundo de mim, se encontro algo
esquecido e que valesse a pena contar, mas não. Esta tudo
vazio ou parado. As pílulas vão se armazenando entre
os órgãos, mas todas fogem do coração. Na
autópsia de um grande astro encontram elas, as pílulas
inteiras dentro dele, mas já sem vida, sem sentido. Voltando
aos segredos, tenho de confessar, contei ao vento o último,
que se encarregou de espalhar ou terminar, como quando jogamos
restos mortais em pó no oceano ou do alto de um penhasco.
Melhor virar para o lado e tentar dormir e não sonhar, esta é
a regra das pílulas, não sonhar. Adormeço e
nas trevas da madrugada sinto o beijo de minha mãe e suas
mãos puxando o cobertor, para que eu fique mais aquecido.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
UM ESQUECIMENTO, UM ECO, UM NADA
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| Jorge Luis Borges |
Sou
Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
by Jorge Luis Borges
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
AMOR INCONDICIONAL
![]() |
| IPÊ ROSA - OUTUBRO ROSA |
Estava eu
atrasado, como de costume, mas cheguei há tempo na rodoviária
para embarcar no ônibus que me levaria até minha mãe,
que não estava passando muito bem. Minha poltrona é ao
lado de uma simpática senhora, que me sorri quando peço
permissão para sentar ao lado dela. Era setembro, em plena
floração dos ipês, árvore que gosto
muito, principalmente os ipês amarelos. O ônibus parte,
meu coração apertado, ansioso para ver minha mãe.
Acabo por adormecer, me acordando com um movimento brusco do ônibus.
A senhora do meu lado sorri. Devolvo o sorriso e brinco dizendo que
sonhava com aquelas árvores que se estendiam como um imenso
túnel de ipês amarelos. Ainda em meio ao sorriso olho
para a rua, e me encanto com o que vejo, um túnel de ipês
amarelos, meus favoritos. Falo com a senhora admirando os ipês,
mas percebo que ela nem liga. Não consigo me conformar, que
alguém não ache bonito esta árvore (se bem que
gosto é gosto, não se discute). Ela se vira para meu
lado, e vendo minha decepção por não concordar
comigo e o resto do mundo, começa a me contar seu trauma com
ipês... ela me contou que tem filhos, e a caçula na
época do ocorrido era bem pequena e sofria de alergia, e na
quadra dela, na rua, todos se orgulhavam desta bela árvore
que no final de agosto já começa a parecer. Já
em setembro, olhando do meio da rua percebe-se uma bela perspectiva,
afinal era primavera, a estação das flores, dos amores.
Mas sua filha sofria muito com a árvore de ipê na frente
sua casa, e crescia para dento do pátio chegando até a
janela do quarto da menina, que era chamada de rena do nariz vermelho
pelos irmãos. Ela não aguentando ver o sofrimento da
filha, pediu ao marido que cortasse aquela árvore na frente de
sua casa. Ele já havia feito várias solicitações
para ser autorizado para cortar árvore. Bem, estamos no
Brasil, onde a máquina pública, até funciona,
mas numa lenta, quase parada burocracia. Não aguentando mais
ver o sofrimento da filha, resolveu por conta própria cortar
as dita árvore. A essas alturas eu já estava quase
chorando de pena da pobre árvore, que estava com seus dias
contados. Contratou um senhor que fazia o serviço e possuía
uma condução, combinou com ele uma manhã bem
cedo e cortou a árvore, já colocando seus restos
mortais no carro do lenhador, que com uma pequena serra elétrica
fez o serviço e deu sumiço na árvore...ela disse
que sofria varrendo a calçada, e se chovia ficava perigoso,
podendo resvalar nas flores coladas no chão. Eu já
quase chorava pela árvore agora morta e sumida. A vizinhança
não percebeu, o marido não acreditou, aliás nem
havia percebido quando chegou em casa. A viagem continuou, ela pegou
no sono e eu ali, pensando, sofrendo por uma árvore que nem
conheci. Mas tirei uma grande lição, uma mãe é
capaz de tudo para proteger e criar com segurança e saúde
seus filhos. Como ninguém percebeu, a rua continuou florindo
seus ipês todo final de agosto, menos na frente daquela casa,
da menina do nariz vermelho, que não ficava mais vermelho
entre agosto e setembro.
ps. Este amor que a pessoa/personagem tem pela filha é incondicional, nada poderia fazer sua filha sofrer, o que me leva a pensar em minha mãe, único amor verdadeiro em minha vida. Esqueci do Teimoso (meu cão que adotei) que está me ensinando a amar de novo, que é possível meu coração ainda bater forte e descompassado como dos apaixonados.
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