sexta-feira, 16 de junho de 2017

FALO BAIXO PARA MEU SILÊNCIO


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Falo baixo para meu silêncio. As portas estão todas fechadas, as janelas também, e meu coração. Não sei mais o que dizer, quando não falas comigo, me deixando no vácuo...Hoje me arrastei da cama, para chegar até aqui, para receber este olhar de desprezo e dor. Nunca falei desta grande dor no peito, que hoje pode explodir em sangue, em grito ou em raiva, contida dentro do coração, que sofre e se joga para morte do quadragésimo degrau. Os tempos de paz ficaram para trás, hoje não tenho nada, nem falar eu falo, apenas ouço música, que é permitido, para conter minha loucura suicida e apreciar melhor o dia. A música tem poder sobre mim, mantém minha lucidez. Do que adiantou sorrir para o estranho que chega, se os próximos me fecham a cara e não dizem nada, apenas o silêncio. O silêncio daqueles de hospital, que é cortado quase sempre por um gemido de dor, ou o grito do cão preso e maltratado, ou do bebê com dor de barriga .Tento entender, me aproximar, mas também não consigo. Falo baixo para meu silêncio.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

QUERO SER SÓZINHO



Solidão

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ÁRVORES E GUERRAS






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Longo e triste outono, onde a chuva é farta e o frio começa a congelar a alma. As árvores com um tom dourado, vão perdendo as folhas, que na mais leve brisa, se deixam levar, tornando o outono longo, triste e chuvoso e encantador. Não fossem as mazelas que nosso mundo atravessa, se chegarmos ao outro lado, quem sabe uma chance de recomeçarmos, tudo correto desta vez. Este sombrio outono esconde a cara da guerra, que espreita por entre poeira, arbustos e rochas. Misseis são lançados a título de experiência, despertando a ira do outro lado, podendo responder com mais misseis, e não demorará muito para não existirmos mais. Apenas esqueletos, nus de vida num dia cinza, como um jardim de galhos secos e nus de folhas. Será o apocalipse, o fim do mundo...mas a esperança renasce de dentro dos esqueletos das árvores...minúsculas folhas verdes e jovens renascem nas árvores esqueléticas, no mundo vazio de vida humana, elas se cobrirão de verde e atravessarão o ano, até encontrar outro outono, e perde-las novamente, transformadas em cobre e douradas folhas, que se deixam levar na menor brisa, e que sobreviverão sobre a maior destruição do planeta Terra, que cumprirá seu destino, independente do ser humano que a destruiu. As árvores com chuva ficam brilhantes e dançam com o vento, e nem imaginam que em algum lugar deste mundo uma bomba explodiu, iniciando assim o fim da raça humana.  

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CLOSE TO ME


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Robert Smith


Quantas vezes terei de dizer que não estou em casa, que há somente silêncio aqui dentro, silêncio e solidão. Podes bater até se cansar e desistir. Com muita sorte consegui entrar aqui, como se fosse o ventre de onde saí, aquecido, silencioso, amoroso, este amor que não se encontra mais, nem aqui dentro. Fechado para balanço ou para o final inevitável. Mesmo assim, insisto em dizer: não estou em casa para ninguém. Muitos já passaram por aqui, tantos me deram abraços, e todos seguiram suas vidas, e eu não estava nelas...Quantas vezes terei de espantar os fantasmas de dentro de mim ? Estes mesmos fantasmas que me seguiram quase uma vida e me abandonam, me deixando só, dentro dessa casa. Ainda posso ouvir as conversas, algum cão latindo, e de vez enquanto, passam um bando de crianças. Sei pelos seus gritos agudos e barulho dos passos rápidos, como se corressem, numa brincadeira sem fim. Agora poderei dormir em paz, assim que o último a tentar entrar na casa, desistir. Silêncio. Agora estou só comigo mesmo e mais ninguém, talvez Deus. Há tanta coisa lá fora, que gostaria de trazer para cá, mas melhor deixar assim, meio vazio, não despertar lembranças nem saudades. Devo apenas ficar quieto, não despertar as curiosidade, como foi hoje pela manhã, quando comecei a pintar os vidros das janelas, de diferentes cores, na esperança de ver um arco-iris aqui dentro, e apenas juntou uma multidão para rir e depois partir para suas vidas medíocres, me deixando em paz, em silêncio, sentado displicentemente no chão, tentando ler um livro, que fala de amor, de vida e de morte.

"I've waited hours for this
I've made myself so sick
I wish I'd stayed asleep today
I never thought this day would end
I never thought tonight could ever be
This close to me"

The Cure