sexta-feira, 16 de junho de 2017

FALO BAIXO PARA MEU SILÊNCIO


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Falo baixo para meu silêncio. As portas estão todas fechadas, as janelas também, e meu coração. Não sei mais o que dizer, quando não falas comigo, me deixando no vácuo...Hoje me arrastei da cama, para chegar até aqui, para receber este olhar de desprezo e dor. Nunca falei desta grande dor no peito, que hoje pode explodir em sangue, em grito ou em raiva, contida dentro do coração, que sofre e se joga para morte do quadragésimo degrau. Os tempos de paz ficaram para trás, hoje não tenho nada, nem falar eu falo, apenas ouço música, que é permitido, para conter minha loucura suicida e apreciar melhor o dia. A música tem poder sobre mim, mantém minha lucidez. Do que adiantou sorrir para o estranho que chega, se os próximos me fecham a cara e não dizem nada, apenas o silêncio. O silêncio daqueles de hospital, que é cortado quase sempre por um gemido de dor, ou o grito do cão preso e maltratado, ou do bebê com dor de barriga .Tento entender, me aproximar, mas também não consigo. Falo baixo para meu silêncio.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

QUERO SER SÓZINHO



Solidão

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ÁRVORES E GUERRAS






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Longo e triste outono, onde a chuva é farta e o frio começa a congelar a alma. As árvores com um tom dourado, vão perdendo as folhas, que na mais leve brisa, se deixam levar, tornando o outono longo, triste e chuvoso e encantador. Não fossem as mazelas que nosso mundo atravessa, se chegarmos ao outro lado, quem sabe uma chance de recomeçarmos, tudo correto desta vez. Este sombrio outono esconde a cara da guerra, que espreita por entre poeira, arbustos e rochas. Misseis são lançados a título de experiência, despertando a ira do outro lado, podendo responder com mais misseis, e não demorará muito para não existirmos mais. Apenas esqueletos, nus de vida num dia cinza, como um jardim de galhos secos e nus de folhas. Será o apocalipse, o fim do mundo...mas a esperança renasce de dentro dos esqueletos das árvores...minúsculas folhas verdes e jovens renascem nas árvores esqueléticas, no mundo vazio de vida humana, elas se cobrirão de verde e atravessarão o ano, até encontrar outro outono, e perde-las novamente, transformadas em cobre e douradas folhas, que se deixam levar na menor brisa, e que sobreviverão sobre a maior destruição do planeta Terra, que cumprirá seu destino, independente do ser humano que a destruiu. As árvores com chuva ficam brilhantes e dançam com o vento, e nem imaginam que em algum lugar deste mundo uma bomba explodiu, iniciando assim o fim da raça humana.  

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CLOSE TO ME


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Robert Smith


Quantas vezes terei de dizer que não estou em casa, que há somente silêncio aqui dentro, silêncio e solidão. Podes bater até se cansar e desistir. Com muita sorte consegui entrar aqui, como se fosse o ventre de onde saí, aquecido, silencioso, amoroso, este amor que não se encontra mais, nem aqui dentro. Fechado para balanço ou para o final inevitável. Mesmo assim, insisto em dizer: não estou em casa para ninguém. Muitos já passaram por aqui, tantos me deram abraços, e todos seguiram suas vidas, e eu não estava nelas...Quantas vezes terei de espantar os fantasmas de dentro de mim ? Estes mesmos fantasmas que me seguiram quase uma vida e me abandonam, me deixando só, dentro dessa casa. Ainda posso ouvir as conversas, algum cão latindo, e de vez enquanto, passam um bando de crianças. Sei pelos seus gritos agudos e barulho dos passos rápidos, como se corressem, numa brincadeira sem fim. Agora poderei dormir em paz, assim que o último a tentar entrar na casa, desistir. Silêncio. Agora estou só comigo mesmo e mais ninguém, talvez Deus. Há tanta coisa lá fora, que gostaria de trazer para cá, mas melhor deixar assim, meio vazio, não despertar lembranças nem saudades. Devo apenas ficar quieto, não despertar as curiosidade, como foi hoje pela manhã, quando comecei a pintar os vidros das janelas, de diferentes cores, na esperança de ver um arco-iris aqui dentro, e apenas juntou uma multidão para rir e depois partir para suas vidas medíocres, me deixando em paz, em silêncio, sentado displicentemente no chão, tentando ler um livro, que fala de amor, de vida e de morte.

"I've waited hours for this
I've made myself so sick
I wish I'd stayed asleep today
I never thought this day would end
I never thought tonight could ever be
This close to me"

The Cure

segunda-feira, 29 de maio de 2017

RIO WOLF



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Jeff  Buckley

O tempo passou sob a ponte dos desejos e nem me disse nada, nem de sorte nem de azar. Deixei meu barquinho de papel correr rio Wolf abaixo, e antes do Mississipi ele desapareceu, deixando uma música inacabada no ar...então descobri que “não consigo ser alegre o tempo todo” . E as pessoas que caminham ao nosso lado, nem sempre estão do nosso lado, por vezes nos confundimos e até desejamos que aquele ser ali, no mesmo passo, poderia ser a cara metade. Mas cedo descobri, que isso não existe, estamos sós no universo, como nosso planeta. Os rios seguem, se encontram, e seguem, se unem, e seguem deixando um rastro úmido para os ribeirinhos, os pescadores, as sereias e os cavalos marinhos. Toquei de leve o rio que passava, meus dedos molhados disseram ao resto do corpo, para se afastar ou se deixar levar de vez, como os barquinhos de papel que desaparecem no rio Wolf, antes de desembocar no rio Mississipi...

"Don't be like the one who made me so old
Don't belie the one who left behind his name
'Cause they're waiting for you like I waited for mine
And nobody ever came"

by Jeff Buckley

segunda-feira, 22 de maio de 2017

8 ANOS NA BLOGOSFERA


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Conheço um menino chamado Isaac que tem a idade de meu blog, nasceu no dia do primeiro post que escrevi, 20 de maio, há 8 anos atrás...escrevo para meu presente, quem sabe deixar um legado ou besteirol que poderia ser descoberto num futuro, por um eu de outro tempo...conjeturas...como diz meu amigo Vitorio Nani, poderíamos nos tornar eternos no mundo virtual. Escrevo há muito tempo, escritos perdidos. Mas há 8 anos escrevo aqui , muita coisa autoral,poemas, letras de músicas, trechos que me apetecem; também já defini meu blog como terápico, poético, diário (como se fosse possível um diário na internet), enfim...escrevo o que me aflige dando um toque dramático, poético, metafórico, e sempre tenho sorte, um comentário faz um blogueiro feliz, uma das coisas que li quando comecei a navegar pela blogosfera, e eu fico. Mas não sei que rumo tomar,, mas estou mais organizado que meu país, que virou uma quadrilha nacional oficial que comanda ou descomanda o Brasil , comprovando que no Brasil só o crime é organizado. Penso também em abolir os comentário, para não ter de sofrer em ver um post só, perdido no mundo virtual, sem um oi, mas faz parte, não se pode ter tudo, já devo agradecer por ter um blog e expressar o que sinto através da escrita. Sou mórbido, tenho consciência, mas sou alegre também, trago tristezas na alma, mas meu coração está repleto de sorrisos. Meu blog anda entre altos e baixos, mais baixos que, mas daí a amiga Tais me acorda, trás palavras, ela lida bem com elas, que me fazem reagir, perceber o ser humano que sou, porque às vezes eu escrevo e não fica muito claro o que quis dizer, mas daí vem meu xará Jair Cordeiro Lopes e poeticamente relê nas minhas entrelinhas o que estava sentindo e não conseguia definir . Em 8 anos conheci tantos blogs e blogueiros, uns mais, outros nem tanto, mas existe um respeito mútuo, que é o que mantém a vida tranquila entre blogs e blogueiros. Alguém tem de dar o exemplo de paz para o mundo. Aqui aprendi a gostar de pessoas que não foram materializadas para mim, mas o gostar, o sentimento existe, e como no mundo real, sinto muita saudade também, mas entendo, seguimos caminhos, nossos caminhos, por vezes se cruzam, por vezes não. Só sei que escreverei enquanto estiver vivo, agora que já fiz 50 anos, penso estar no lucro, meus órgãos vitais já não são os mesmos, e meu coração dá sinal de cansaço, por amar demais e não ser amado, de correr demais e agora estar cansado. Meu coração bate ao ritmo do de minha mãe...e o menino Isaac cresce, está sendo alfabetizado, gosta de jogar capoeira, uma criança que brinca e se entrega a vida, a sua longa vida que tem pela frente.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

OLHAR CEGO


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Ad infinitum...ao que parece nossa triste situação política do país, só morrerá quando não houver mais pedra sobre pedra, ou melhor, esta geração de políticos podres e corruptos não serem mais votados pelo pobre povo ignorante do Brasil. Incertos destinos e certos, talvez, determinados fins, de final. Mas eu sempre lembro do Collor, foi dado impeachment, e ele retornou nos braços do povo para o Senado. Não temos memória. Não temos respeito. Não temos compaixão. O lucro é tudo que se quer e se consegue das piores maneiras, como estamos vendo o que está acontecendo com nosso país. E no meio de tudo isso, meu grito de socorro é sufocado e minha mãe pode voltar para as trevas da catarata. E eu me perder dentro de mim...Era muita catarata, o sucesso da operação sucumbe no olho machucado. Outro olho, outra técnica, outra e última oportunidade de abrir uma brecha para a visão de minha mãe. Pedir a Deus ? Vender minha alma ao Demônio ? Não suportarei minha mãe cega, nos poucos anos que lhe restam de vida. Em minha família morremos cedo. Mas eu morreria sem ela e não suportaria a escuridão de seu olhar...pensar, sempre há uma saída, mas tem de ser rápido, senão a escuridão não terá mais volta, ad infinitum...

terça-feira, 16 de maio de 2017

IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PRA VIVER


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Cazuza


IDEOLOGIA


Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Frequenta agora as festas do "Grand Monde"

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver


by Cazuza


ps. Toda manhã peço a Deus que afaste de mim este grito da morte me chamando, sempre depois de 40 degraus...sempre tenho vontade de morrer quando subo, quando desço...ainda bem que tenho Deus em mim. Eu era jovem e amava o Cazuza quando ele partiu, ainda hoje guardo uma imensa saudade. Não é todo  dia que um anjo torto em forma de gente, nos dá o prazer de viver no nosso tempo. Eu vivi o tempo de Cazuza, sinto falta, assim como  já  sinto falta do Belchior. No momento apenas preciso de uma ideologia, que recomece a me ensinar a viver e não desejar a morte, só se ela  for    silenciosa e não deixar  eu ver ela me levar.
O dia se faz lindo hoje, não é um bom dia para morrer, seria um bom dia para amar, se o amor fosse possível. Tempo bom para esquecer, caminhar sem destino, parar e observar o mundo como ele é,      egoísta, mal, triste...mas nada que um dia de Sol para aquecer  e alegrar um coração triste.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

CONEXÕES PERDIDAS


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Somos tão distantes uns dos outros, inventamos caminhos distraídos. Conexões perdidas entre as raízes das árvores. Sim, elas se comunicam, agora eu sei, e “só as árvores são naturais, o resto é fruto da mente do homem”. Comecei assim minha caminhada, de árvore em árvore. No início eram brincadeiras, balanços, navios e naves espaciais. Depois o entrincheiramento, a fuga e o esconderijo...sobre árvores brinquei minha infância, no alto, distante de quase todos, existiam os meninos perdidos, que sempre estavam sobre árvores, e por vezes, os encontrei e brinquei, mas distantes uns dos outros. Corpos estranhos em lugar comum a todos. Não adianta uma multidão, se te sentes só. Como diz aquela canção de um suicida: “quando a rotina pesada e as ambições são pequenas, e o ressentimento voa alto, mas as emoções não crescem. E estamos mudando nossos caminhos, pegando estradas diferentes”. Somos tão distantes e estranhos uns aos outros. Inventamos caminhos de amor e morte e desculpas para não olhar nos olhos. Negamos respostas que se encontram dentro de nós, mas não sentimos nem vemos. Seguimos caminhos entre árvores, que se colocam lado a lado, em pares, unidas pelas raízes do amor eterno, e resistem ao tempo e as tempestades, aos raios que teimam em se atrair por elas, matando uma, morre de amor a outra. Menos oxigênio, pouco a pouco, pois nossas conexões não são fiéis como as árvores, e apesar do tempo gasto entre nós, estranhos e individualistas, nada mudará este estado, esta forma de viver. Somos tão distantes e estranhos uns dos outros.



"When routine bites hard and ambitions are low
and resentment rides high but emotions won't grow
And we're changing our ways
taking different roads"

by Joy Division


terça-feira, 9 de maio de 2017

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso." by Fernando Pessoa
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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu



by Fernando Pessoa

sexta-feira, 5 de maio de 2017

QUEM TEM MEDO DE ROBÔ MAL ?


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Estava eu atarefado com minhas coisas de trabalho, em uma manhã de raro Sol sereno, uma leve brisa, um dia perfeito de um bom Outono. Tenho quarenta degraus para encarar toda manhã, que faz parte de minhas funções, uma espécie de arauto do apocalipse, saio pelo prédio a entregar material de expediente, cartas, oficios, requerimentos, enfim, um traço da tecnocracia, uma burocracia louca e destruidora que nós seres humanos criamos, agora comandados pelo mundo virtual. Que chega contudo, oferecendo as mais incríveis possibilidades virtuais. Chega de papel ( as árvores agradecem). Chega de seres humanos, afinal os computadores estão sendo aperfeiçoados para nos substituir. Como vivemos praticamente na barbárie, onde a política suja o pouco que resta de dignidade do povo brasileiro. Mas não podemos reagir, afinal as leis estão aí para proteger o cidade e a sociedade, a busca da paz social. E não é o que vivemos hoje, nosso país, nossas cidades frequentam os piores ranks na violência, matança nos presídios, gays são mortos assim, simplesmente. E da saúde, a saúde não existe mais, estamos todos doentes. Mas nossos filhos estão viciados nesta nova onda. A virtualidade. Mas quem disse que é para o nosso bem as máquinas criadas pelo próprio homem. Não é de se admirar, se nos matamos com tanta facilidade e por nada. Respeito ? Palavra banida de nosso dicionário. E no redemoinho desses pensamentos, percebo uma movimentação no castelo onde trabalho, os lugares de repente, estavam vazios ou um e outro, trabalhando maquinalmente. Um curso para aperfeiçoar e implantar um novo sistema altamente virtual, o futuro chegando a galope nestes pampas. Foi então que percebi, sou carta fora do baralho, meu trabalho não carece aperfeiçoamento, já posso ser descartado, assim como fiz concurso para entrar, mas como o que faço um robô fará, não existe mais a necessidade de minha presença. Socialmente senti-me excluído por não ser chamado, assim como todo mundo que precisar deste serviço. Ou manobras um robô ou desiste e fuja para o campo, o mato, longe, longe de tudo aqui. Até que os robôs deem falta e começam a seguir, numa louca caçada, aos seres humanos. Enquanto isso, tomo meu chá, fico em silêncio, esperando o momento em que serei chamado, para dizerem que não precisam mais de meu serviço.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

VAMOS PARA NOSSA CASA


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A espera tornou-se sem expectativa, mesmo caminhando por toda a praça, contando cada árvore, examinando os brinquedos, sentando em todos os bancos, e sua esperança começa a partir. Todas as palavras ditas, mal ditas, e mal interpretadas. Fecha os olhos e só consegue lembrar dos gritos, pratos sendo quebrados. Susto. Houve-se em bater de porta, de passos pelos corredores e escada abaixo, já que o elevador deixou de funcionar, e ninguém, nem o síndico resolve este problema. Mas agora os passos saem pela porta do prédio, uma dúvida, esquerda ou direita? Olhou para o céu e viu nuvens passando apressadas, algumas juntando-se e formando uma nuvem maior...segue pela direita pois o final da rua termina em uma praça. Seu lugar favorito do mundo, e do outro também. As relações nos dias de hoje, disse o avô de um deles, são frágeis porque falta verdade no sentimento. É tão fácil abraçar, beijar e transar, mas conviver junto em harmonia e respeito, poucos conseguem, sem falar nos casais com anos de casamento, mas são dois estranhos dormindo na mesma cama. Ficou ali, sentado no último banco, sob a sombra de uma imensa seringueira, com suas raízes expostas, formando um belo labirinto de caules, como o labirinto de seu coração, e talvez do outro também. Distraído de baixo da árvore, não percebeu que chegava uma chuva de verão. E antes que pudesse reagir, correr, falar , estava em pé, na sua frente, com o enorme guarda-chuva que compraram por brincadeira, era tão grande que parecia lona de circo. Agora, frente a frente, não conseguia sair dali, foi quando puxado pelo braço, ouviu: vamos para nossa casa...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

BELCHIOR


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Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco e vindo interior”...foi quando descobri Belchior já no inicio dos anos 80 (que saudade musical) . Aos sábados me reunia com amigos na casa do Jaca, o amigo que me apresentou Belchior. Eram discos, com as letras dentro da capa. Lembro de ter quase enlouquecido com a poesia dele. Já naquela época gostava de rabiscar, poemas, textos que se perderam nas mudanças. O que havia encontrado naquele cantor bigodudo era muito mais do que imaginava minha vã filosofia. Foi um situar-me no mundo, o que estou fazendo, e como fazer. Ainda vivia na ditadura militar, e as letras de Belchior me davam sinais, me mostravam caminhos, que hoje entendo melhor. Sempre gostei de música, desde o ventre rs e quando vivendo aqui neste planetinha, muito menino descobri a poesia, mas nada que fizesse muito sentido, até encontrar Belchior, eu, um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, começava a ver com outros olhos, outra mente, outra postura com relação ao mundo que me rodeava, e nem sempre conseguia acompanhar. E sem dinheiro no banco e a inexistência da internet, restava-me muito pouco. Então devorei a biblioteca pública e ia me alimentado de palavras, com a música do Belchior sempre me acompanhando. Foi minha trilha sonora. Passei a ter um posicionamento político contra a ditadura que já dava sinais de cansaço. Pensei em postar junto uma letra de música dele, mas já o fiz em outras oportunidades no meu blog, então me limitarei a prestar esta singela homenagem ao artista que mexeu para sempre com minha mente, meus sentidos, minha vida...pois continuo latino americano sem dinheiro no banco, nem parente importante, e vivendo no interior.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

DESCONHEÇO O PAÍS QUE VIVO


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Desconheço o país que vivo, que até então, reconhecia como meu lar, onde pulsa no meu coração verde e amarelo o ufanismo de ser daqui, mas como disse, desconheço este país, que beneficia os ricos e altos cargos públicos, enquanto penaliza a população, o trabalhador braçal, o funcionário público que faz o trabalho das autoridades e sofre assédio moral. Tristes trópicos como diria Lèvis Strauss. Meu país é um trem desgovernado, que não se sabe o que vai acontecer, se parar o bicho pega e continuar o bicho come. Nos hospitais, ou estão fechando ou superlotados, pelos corredores, nos banheiros já se deu partos, no chão dos corredores pessoas com doenças terminais. Nas escolas, quando tem aula, as crianças são obrigadas a deitar no chão para fugir de balas perdidas, mesmo assim todo santo dia morre uma ou mais pessoas por bala perdida, ou seria bala com endereço certo ? Neste último domingo antes de dormir, vi um programa investigativo na televisão, não deveria ter visto, demorei muito para dormir (mesmo com remédios). Uma menina, a alguns anos atrás, com 15 anos foi pega furtando numa casa, onde a pegaram e trancaram no banheiro, um parente policial desta pessoa foi buscar a menina e levar para delegacia, a partir daí, uma sucessão de erros, desmandos e desinteresse pelo ser humano, no caso, uma menor. Autoridades homens e pasmem, mulheres mantiveram esta menina em cárcere privado, numa delegacia, numa cela com 20 detentos...não é preciso dizer o que se passou nestes 26 dias que a menina esteve nesta cela. E assim é este país, que teimo em dizer que é meu. Mesmo sabendo que os valores, que aprendi enquanto guri, dos meus avós, meus pais, tios, parece que tudo esta indo ralo abaixo. O respeito. A honestidade. A compaixão. Meu maior medo é perdermos de vez nossa identidade como ser humano.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ACHO QUE NÃO SEI QUEM SOU


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"You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn"

by Alanis Morrissete







Os dias em que viver não faz diferença, entre sorrir ou chorar

Assim me portei por muito tempo, no tempo de tua existência,

Quando minha trilha sonora era dos anos 80, minha única trilha que

deixei pequenos pedaços de pão, para poder voltar. Não voltei.

Os dias sangrentos de nossa passada história, os negros, os índios

A ditadura que foi meu berço, meu algoz e meu libertador.

Escuto meu silêncio e minha respiração e meu coração

que pode parar de bater a qualquer momento,

após meio século de existência.


by Jair Machado Rodrigues





O dia não flui, como ficar vivendo o mesmo instante nas primeiras horas da manhã...o horário do Sol esquecido, convida um outro tempo de dias ventosos, como em finados. Subindo as escadas que levam ao céu, de onde pode se ver a Terra, tão azul, tão linda e tão só, perdida na imensidão do universo. Tempos de alegria, com brincadeiras ao redor da fonte, jogando moedas e fazendo pedidos. Outro dia, outra hora, outro tempo...




“Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos”

by Legião Urbana










ABRIL SE ESVAI...


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Abril se esvai com seus dias lentos, frios e leves. Onde memórias esquecidas brotam no calor do edredom, onde o mal não chega, somente a solidão. Aquecida e não menos dolorosa, mostrando nossa colheita do que foi plantado. Nos meus sonhos plantava trigo e amor. Em minha vida real juntei pedras, escolhi caminhos, deixei amigos e baixei meu olhar do céu. Entre as sombras e esquinas esquivei-me de encontros, somente guiei meus passos que nada dizem, apenas andam em círculos equivocados, becos, becos de vida, onde são interrompidas, de bala perdia ou um punhal que brilha em noite de Lua, antes de atingir o estomago, para cortá-lo, deixar cravado no corpo a lamina cortante da arma branca. Em pouco tempo sairei desta casa astral e de meu inferno zodíacal, talvez tropece em maio, caia em junho e não suportando a solidão gelada do inverno, talvez desista, talvez morra, talvez enfim, venha minha colheita de amor e morte.



A VIDA E A MORTE


 
O que é a vida e a morte

Aquella infernal enimiga

A vida é o sorriso

E a morte da vida a guarida

 

A morte tem os desgostos

A vida tem os felises

A cova tem as tristezas

I a vida tem as raizes

 

A vida e a morte são

O sorriso lisongeiro

E o amor tem o navio

E o navio o marinheiro


by Florbela Espanca

 



Em 11-11-903



segunda-feira, 17 de abril de 2017

O SORRISO DE MINHA MÃE


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Os dias sombrios tornaram-se claros, cristalinos no olhar de minha mãe. A cegueira que tomava conta foi atacada, e tivemos uma vitória linda nesta guerra que travamos todos os dias. Meu coração já andava cabisbaixo, diante das trevas que minha mãe vivia. A saúde pública neste país é vergonhosa...também, nossas autoridades roubaram tanto, mas tanto, que estamos em petição de miséria. E minha mãe que não tinha nada a ver com isso, aguardava silenciosa o dia que seria chamada para consultar um oftalmo, para lhe clarear a visão. Nada disso. Não havia tempo para atender o povo, o mesmo povo que colocou cada político a onde está. Mas tinham outras prioridades, como assaltar o país. Minha angústia, minha dor era maior a cada contato com ela. Abraçava-a, mas não podia emprestar meu olhar, só me restava abraça-la. Chegou num ponto que não mais suportei, quando tirei férias fui para casa, catei meus dinheiros e a levei numa clínica particular, após exames, era possível reverter a situação. Conseguimos, e passei a Páscoa mais linda da minha vida, olhando minha mãe me olhar, me vendo e vendo o mundo, este mesmo mundo que parece em estado ebulição nos quatro cantos da Terra. Mas éramos nós e a luz que emanava de minha mãe, o sorriso e o abraço, agora nos olhando, nos vendo. Pedi a Deus, por várias noites antes de dormir, pedia um milagre e ele me deu força e coragem e luz no meu caminho e ideias, que me permitiram pagar pela cirurgia. Hoje penso em minha mãe, e não sinto mais aquela dor no peito, aquela angustia...só sinto alegria ao vê-la andar, ao vê-la me olhar e sorrir.

sábado, 8 de abril de 2017

50 ANOS DE SOLIDÃO





               “Para muitos, 1967 foi o melhor ano da história do rock. Pode ser um exagero, mas certamente o rock viveu um de seus melhores 12 meses. Motivos para isso não faltam: os Beatles lançaram o disco que mudou o mundo, Jimi Hendrix apareceu, os Doors estrearam, o Velvet Underground colocou o seu primeiro álbum nas lojas, o Pink Floyd veio ao mundo, o Cream lançou a sua obra-prima. A explosão da psicodelia e do Flower Power fizeram do ano uma grande celebração na cronologia da música”

              Em 09 de abril desse ano (1967), eu nasci numa pequena cidade no Sul do Sul da América do Sul...tomei consciência da minha existência, alguns anos depois, dos primeiros anos, memórias perdidas, lembranças escassas na memória afetiva. Vinguei, diria meu falecido avô, e desde lá passaram-se 50 longos anos, ou rápidos, não consigo mesurar...”Você não sabe o quanto caminhei, para chegar até aqui...” 50 anos de Solidão, nem tão só, mas é um título poético deprê, que combina comigo, em boa parte destes 50 anos e faz uma alusão ao livro 100 anos de Solidão do Gabriel Garcia Marques, marcante em minha vida, dentre muitos. Estes, os livros, sempre foram parceiros e amigos presentes na minha existência. Minto também no título, por ter muitos amigos, muitos ao longo destes anos, mas todos temos nossas vidas, e não sabemos o que vai acontecer quando dobrarmos a esquina: seguimos nossos destinos e naturalmente, os caminhos se bifurcam, o mundo é tão vasto “mundo, mundo, vasto mundo, a se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Confesso que não sou bom em preservar amizades, fui chamado de pior melhor amigo, por uma amiga querida, justo por esquecer as datas de aniversário, o que é importante para ela. Ao contrário de mim, que sempre fugi nas datas de aniversário, anos em que passei só, longe da família ou amigos, esta amiga sempre fez questão da comemoração. Hoje sei e entendo e aceito, esta alegria de conquistar mais um ano, apesar de estarmos morrendo a cada segundo que passa, a partir do nosso nascimento. A luta da vida e da morte, foi o que sempre aconteceu durante anos...por enquanto a vida vence, e faço de tudo para continuar assim, uso remédios, pílulas para alegria, pílulas contra a ansiedade, pílulas para dormir, tudo com acompanhamento médico e terápico ; quando vejo a fragilidade do muro de vidro que construí para me proteger. “Sigo adiante, misturo-me a vocês...” ou me fecho no quarto, na tentativa de dormir e ter um sonho bom, fugindo da realidade dura e crua, vendo toda esperança deixar de existir, se esvaindo, como areia entre os dedos. “Feliz aniversário, envelheço na cidade; feliz aniversário, envelheço na cidade” Mas a maturidade que adquiri nestes anos, me faz ver uma possibilidade de viver melhor, entender melhor, ser um humano melhor, com falhas, mas muitos acertos. Retalhos, pedaços de um grande quebra-cabeça, onde peças importantes não se permitiram encaixar, tornando-me assim, incompleto, mas com o coração cheio de esperança, a mesma que pode se esvair entre meus dedos...se for como a canção: “ninguém consegue ser feliz sozinho” , estou condenado a eterna solidão (pausa dramática), fecho os olhos e vejo meu cão adotivo Teimoso, feliz ao me ver chegar. Meu coração consegue amar, apenas não teve chance, ou talvez a profecia ou maldição faladas um dia, se cumpra, quando chegar aos 57 anos...tenho medo de não existir para conhecer o amor de minha vida, enquanto isso, aceito de bom grado , a “parte que me cabe deste latifúndio ” feliz  aniversário para mim, feliz aniversário.
"Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
Com minha própria lei."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NÃO CABE NO POEMA


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Não há vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

 by Ferreira Gullar

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOSSO CAOS DE TODO DIA


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Acreditava que não podia piorar. As cenas eram terríveis quando chegou ao local, eram de dor e desespero, pessoas desmaiando, outros desesperados por não conseguir respirar e muitos espumavam pela boca, como cães raivosos, mas sem forças para atacar, apenas se contorciam no chão. Todos a espera de um salvador, qualquer um que pela mão os encaminhassem para um lugar sem guerra, sem morte prematura de jovens e crianças. Onde mulheres e velhos fossem respeitados, e os homens, honestos e trabalhadores. Mas por enquanto é só o que resta. As equipes de socorro tinham tantos para socorrer que era difícil reconhecer quem precisava mais e imediatamente de tratamento. No ar ainda podia se sentir aquele cheiro da morte e de gases venenosos, e ruídos ao longe que faziam tremer os já frágeis e semidestruídos prédios. No hospital, que mais parecia uma campo dos perdedores, após o fim de uma guerra. Mas fim é uma possibilidade remota e incerta. Em leitos improvisados, alguns até no chão, enfermeiros e médicos faziam o impossível para perder o menor número de vítimas civis. Mesmo assim, continuavam os ataques, que pareciam cada vez mais próximos do hospital. Vermelho era a cor que tomava conta, do cinza das pedras da rua, dos prédios semidestruídos e os destruídos, com certeza, vítimas mortas e agonizantes nos destroços, do que foi uma casa de uma família feliz um dia. Agora um amontoado de pedras. O ritmo é corrido no hospital, cada segundo pode custar mais uma vida. Acompanhando tudo, como se fosse um filme de terror e guerra, reza baixinho enquanto carrega no colo um menino encontrado desmaiado, com o corpo coberto de terra, para o hospital. Podia sentir o coração pulsando daquele pequeno corpo infantil. Quando estava sendo atendido, mais uma explosão, mas desta vez era no hospital. Então percebeu que podia ficar pior, muito pior.

quarta-feira, 29 de março de 2017

CONTAR ESTRELAS

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Quase cansei de te esperar, então resolvi contar estrelas e deixar que meus pés tocassem as águas do riacho que passa, como o tempo, como minha vida, como os amigos deixados para trás, e os que me deixaram. Agora eu sei que a distância e a internet não fazem muito sentido. Existe o abandono virtual, de quem escreve, de quem lê, de quem olha. As escolhas que fizemos ou deixamos de escolher, deixar fluir. Estou na estrela 1001, e quase adormeci. Uma verruga no dedo, diria minha avó, por apontar o céu estrelado. Meu inferno astral está chegando ao seu ápice, espero sobreviver depois disso, como sobrevivi até hoje. Estou só, isto é fato, mas não me queixo. De novo minha falecida avó, antes só do que mal acompanhado. Talvez seja eu a má companhia, talvez não tenha nada a dizer sobre minha vida, sobre as estrelas, como diria Olavo Bilac:



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? "

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas".

by Olavo Bilac

terça-feira, 21 de março de 2017

MEU AMOR SE MUDOU PRA LUA

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Paula Toller



Cai a tarde sobre os ombros da montanha onde me largo
O dia não foi, a noite o que será
Meus cabelos pela grama e eu sem nem querer saber
por onde começo e onde vou parar

Na imensidão do amanhã
meu amor se mudou pra Lua
Eu quis te ter como sou
mas nem por isso ser sua

Vou adiante como posso, liberdade é do que gosto
O dia nasceu, azul é sua forma
Já não quero mais ser posse, fosse simples como fosse
Um dia partir sem ganchos nem correntes

Façamos um brinde, façamos um brinde
à noite que já vai chegar
Façamos um brinde, façamos um brinde
ao vento que veio dançar

by Paula Toller 

segunda-feira, 20 de março de 2017

JORGE LUIS BORGES E A CEGUEIRA

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Jorge Luis Borges
...
Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.

Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.

O sr. já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem vai me molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém lhe ameaça de morte, você não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.
...

ps. O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985.

ps2. Estou travando uma batalha com a cegueira que tomou os olhos de minha mãe. Minha mãe sofre de diabetes e faz tratamento na Saúde Pública, mas não há oftalmologista, ou há, mas se leva anos, eu disse anos, para uma consulta. Minha mãe estava na fila, mas não suportei ver seu estado, que sobrevivendo de um AVC fraco, foi-se a visão e veio uma profunda depressão. Catarata nos dois olhos...tive de procurar clínica e médicos particulares, com bastante dificuldade, mas nada importa mais que a minha mãe me ver (egoísmo meu) e ver sua vida, que pulsa naquele coração generoso. Existe a possibilidade de reverter esta situação, embora seus olhos estejam tomados de catarata, um dos exames verificou que não há prejuízo nos olhos, podendo fazer a cirurgia.

sexta-feira, 17 de março de 2017

E O AMOR RESTOU INÚTIL



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"Por isso hoje estou tão triste
Porque querer estar tão longe de poder
E quem eu quero está tão longe
Longe de mim"

by !IRA e Pitty



          Alguém teria de tomar uma atitude, não se poderia viver assim, embora o amor fizesse parte ainda daqueles dois. Era inevitável não partir. Com as malas prontas e o táxi esperando, partiu. Chorava quem partia. Chorava quem ficava. A teimosia e o ciúme corroeram aquela doce relação. Um casal bonito de se ver, quando aos domingos, cedo estavam na pracinha do condomínio tomando chimarrão (bebida típica de um deles). Conversavam, e educados cumprimentavam a todos, dando atenção a quem perguntasse algo. Assim passavam todos os domingos, felizes e sorridentes, até o Sol começar a morrer lá no horizonte...era como se os dois deixassem suas almas morrerem com o Sol, e não acreditavam no poder da Lua. E assim que o Sol sumia, eles juntavam suas coisas esparramadas pelo gramado, e desapareciam condomínio adentro...o táxi partiu rumo ao aeroporto. Dentro do avião, quem partiu, olha pela janela e vê a Terra se afastando. Uma vida passada. Dentro de casa, quem ficou, olha pela janela, observa o céu e vê o rastro de um avião.

          Nem sempre o amor estará acima de tudo, haverão escolhas, ou amor ou saúde. Acredito no amor verdadeiro, o amor das mães, até no amor dos cães, mas como confiar no amor do outro, dito de sua boca, será que saiu do coração ? Ou é mais uma banalidade com fins sexuais ? O ciúme como um cupim vai comendo por dentro, e quando se vê, onde existia uma madeira forte, nada mais resta senão farelo e o fim de mais uma aventura de amor. A teimosia, também foi minando a relação. Eu quero o Sol. Eu quero a Lua. Se podemos ter os dois, porque não ceder um pouco hoje e ver o Sol, ceder mais um pouco e ver a Lua. Uma bela noite de amor que não haverá mais, assim pensa quem ficou, assim pensa quem partiu. “E o amor restou inútil...”


quinta-feira, 16 de março de 2017

SE NÃO TEM CORAÇÃO ?


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Não Tenho Medo da Morte

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida

by Gilberto Gil

quarta-feira, 15 de março de 2017

ALGO FLUTUANTE

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Sobre a ponte, olhava o rio e pensava na vida, no tempo que estou por aqui...qual o próximo passo ? Eis que surge ao longe no rio, algo flutuante; senti um pouco de inveja, não sei nadar, muito menos boiar...gosto dos filmes bíblicos onde aparece Jesus caminhando sobre as águas. Continuei a observar aquele corpo estranho, não corpo humano, mas um tronco de árvore talvez, até mesmo um pequeno barco à deriva. Como se fosse permitido um rio carregar um corpo humano, boiando em suas águas...foi o que vi, quando aquele corpo inchado passou sob a ponte. Fiquei pensando da vez que corri até a ponte em um rio que passava pela cidade em que morei na infância...queria morrer, me jogar, ir para o fundo e depois de cinco minutos, subir à tona e boiar ao sabor do rio, esquecendo de tudo, família, amor abortado, jardins que não floresceram, embora eu me empenhasse com os cuidados, quando a cama me deixava sair dela, quando conseguia me arrastar até a porta dos fundos e pegar o regador. Absorto nestes pensamentos, quase esqueci que um corpo morto boiando passou sob a ponte, sob meus pés...iniciou um burburinho, cochichos, e fofocas, pois aquele corpo chegou na prainha do lugar, e da ponte pude perceber a aglomeração em volta ao corpo, que há pouco tempo deslizava pelo rio, assim, como me perdia em pensamentos. Sobre a ponte pude ver o cadáver boiante encontrar um porto seguro, nas areias daquela prainha. E eu ? O faço aqui ? Senti uma necessidade urgente de ver aquele morto. Pelo acostamento, fui descendo até as areias brancas da prainha, e logo já me misturava com a multidão aglomerada envolta do corpo. Ali. Estático. Mudo. Parado. Morto. Era negro e tinha um pequeno bigode, podia se ver no rosto inchado, assim como o resto do corpo, que era jovem...respirei aliviado, apesar de quase achar que era eu, daqui do alto da ponte.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

POR UMA LÁGRIMA TUA


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Lágrima

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar

  by Amália Rodrigues

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

OLHOS NEGROS


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Encontrei teus olhos negros hoje pela manhã e não acreditei, como não acreditei na violência nos presídios, nem das mortes inocentes nas cidades...senti um punhal atravessar meu peito e tocar meu coração. Enquanto olhava teus olhos de Medusa, paralisei. Os dias comuns se arrastam, repetindo o nascer e morrer do Sol todos os dias. Não sabia que eles eram tão negros, como noite sem luar, mais negros que todos os meus pesadelos juntos. Desci as escadas em paz com meu coração, ele pulsa, ele vive. Teus olhos negros nada me prometem, apenas me olham e me deixam nu, devolvo o olhar e vejo tua alma flutuando sobre nossas cabeças. Recolho-me em silêncio e lembro do domingo em lágrimas e ninguém para me oferecer um lenço ou me abraçar enquanto engolia o choro, como criança assustada, e me aquecia sentindo teu olhar sobre mim. Não busco o amor, não busco um abraço nem beijo, apenas um par de olhos negros que me olhem, e me vejam e conheçam meu sorriso. Um encontro pode ser um desencontro, e nunca mais ver teus negros olhos, apenas uma vaga lembrança que ira se apagando com o tempo. Estou em silêncio, e nada direi, apenas procurarei olhar teus olhos negros, como a treva que tomou conta de meu coração, mas sem o brilho que vem da tua alma e jorra pelos olhos negros, que me perseguem. Eu espero, contarei os dias, as noites e descerei e subirei as escadas que podem me levar ao céu ou ao inferno. Encontrei teus olhos negros pela manhã, e não consegui dizer nada, apenas devolvi o olhar e suspirei.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

SONO, SONHO E PESADELO


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Quantas noites ainda terei de passar aqui sozinho e com frio (devo estar delirando, passa dos 30 graus lá fora), minha visão é turva e não escuto muito bem. Perdi a conta dos dias deixado aqui, neste lugar que não consigo identificar as vozes e as caras que caminham em circulo, batendo em mim. Pensei no Expresso da Meia-Noite, mas aqui posso caminhar nos corredores sem fim e sem cor, até cansar e desmaiar e acordar na cama. Ninguém me diz nada, nada que faça sentido, ora se nega, ora se afirma. Estou confuso. Tenho apenas o travesseiro como confessionário, mesmo porque não teria o que dizer a um padre, e se dissesse, nada ele poderia fazer. Extrema unção? Talvez, daqui há muito tempo...deitado agora, de olhos fechados posso ouvir a chuva lá fora. Posso sentir as árvores se debatendo, como se dissessem algo, me mandassem um sinal. Que o tempo está passando, e a vida também, como uma bola rolando ladeira abaixo, rumo ao indizível, apenas se deixando levar. Poderia ler uma poema da Ana Cristina César ou ouvir Cássia Eller, mas meus sentidos estão perdidos entre o sono, o sonho e o pesadelo, enquanto a noite não passa, enquanto eu não passar...