segunda-feira, 24 de abril de 2017

DESCONHEÇO O PAÍS QUE VIVO


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Desconheço o país que vivo, que até então, reconhecia como meu lar, onde pulsa no meu coração verde e amarelo o ufanismo de ser daqui, mas como disse, desconheço este país, que beneficia os ricos e altos cargos públicos, enquanto penaliza a população, o trabalhador braçal, o funcionário público que faz o trabalho das autoridades e sofre assédio moral. Tristes trópicos como diria Lèvis Strauss. Meu país é um trem desgovernado, que não se sabe o que vai acontecer, se parar o bicho pega e continuar o bicho come. Nos hospitais, ou estão fechando ou superlotados, pelos corredores, nos banheiros já se deu partos, no chão dos corredores pessoas com doenças terminais. Nas escolas, quando tem aula, as crianças são obrigadas a deitar no chão para fugir de balas perdidas, mesmo assim todo santo dia morre uma ou mais pessoas por bala perdida, ou seria bala com endereço certo ? Neste último domingo antes de dormir, vi um programa investigativo na televisão, não deveria ter visto, demorei muito para dormir (mesmo com remédios). Uma menina, a alguns anos atrás, com 15 anos foi pega furtando numa casa, onde a pegaram e trancaram no banheiro, um parente policial desta pessoa foi buscar a menina e levar para delegacia, a partir daí, uma sucessão de erros, desmandos e desinteresse pelo ser humano, no caso, uma menor. Autoridades homens e pasmem, mulheres mantiveram esta menina em cárcere privado, numa delegacia, numa cela com 20 detentos...não é preciso dizer o que se passou nestes 26 dias que a menina esteve nesta cela. E assim é este país, que teimo em dizer que é meu. Mesmo sabendo que os valores, que aprendi enquanto guri, dos meus avós, meus pais, tios, parece que tudo esta indo ralo abaixo. O respeito. A honestidade. A compaixão. Meu maior medo é perdermos de vez nossa identidade como ser humano.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ACHO QUE NÃO SEI QUEM SOU


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"You live you learn
You love you learn
You cry you learn
You lose you learn
You bleed you learn
You scream you learn"

by Alanis Morrissete







Os dias em que viver não faz diferença, entre sorrir ou chorar

Assim me portei por muito tempo, no tempo de tua existência,

Quando minha trilha sonora era dos anos 80, minha única trilha que

deixei pequenos pedaços de pão, para poder voltar. Não voltei.

Os dias sangrentos de nossa passada história, os negros, os índios

A ditadura que foi meu berço, meu algoz e meu libertador.

Escuto meu silêncio e minha respiração e meu coração

que pode parar de bater a qualquer momento,

após meio século de existência.


by Jair Machado Rodrigues





O dia não flui, como ficar vivendo o mesmo instante nas primeiras horas da manhã...o horário do Sol esquecido, convida um outro tempo de dias ventosos, como em finados. Subindo as escadas que levam ao céu, de onde pode se ver a Terra, tão azul, tão linda e tão só, perdida na imensidão do universo. Tempos de alegria, com brincadeiras ao redor da fonte, jogando moedas e fazendo pedidos. Outro dia, outra hora, outro tempo...




“Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos”

by Legião Urbana










ABRIL SE ESVAI...


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Abril se esvai com seus dias lentos, frios e leves. Onde memórias esquecidas brotam no calor do edredom, onde o mal não chega, somente a solidão. Aquecida e não menos dolorosa, mostrando nossa colheita do que foi plantado. Nos meus sonhos plantava trigo e amor. Em minha vida real juntei pedras, escolhi caminhos, deixei amigos e baixei meu olhar do céu. Entre as sombras e esquinas esquivei-me de encontros, somente guiei meus passos que nada dizem, apenas andam em círculos equivocados, becos, becos de vida, onde são interrompidas, de bala perdia ou um punhal que brilha em noite de Lua, antes de atingir o estomago, para cortá-lo, deixar cravado no corpo a lamina cortante da arma branca. Em pouco tempo sairei desta casa astral e de meu inferno zodíacal, talvez tropece em maio, caia em junho e não suportando a solidão gelada do inverno, talvez desista, talvez morra, talvez enfim, venha minha colheita de amor e morte.



A VIDA E A MORTE


 
O que é a vida e a morte

Aquella infernal enimiga

A vida é o sorriso

E a morte da vida a guarida

 

A morte tem os desgostos

A vida tem os felises

A cova tem as tristezas

I a vida tem as raizes

 

A vida e a morte são

O sorriso lisongeiro

E o amor tem o navio

E o navio o marinheiro


by Florbela Espanca

 



Em 11-11-903



segunda-feira, 17 de abril de 2017

O SORRISO DE MINHA MÃE


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Os dias sombrios tornaram-se claros, cristalinos no olhar de minha mãe. A cegueira que tomava conta foi atacada, e tivemos uma vitória linda nesta guerra que travamos todos os dias. Meu coração já andava cabisbaixo, diante das trevas que minha mãe vivia. A saúde pública neste país é vergonhosa...também, nossas autoridades roubaram tanto, mas tanto, que estamos em petição de miséria. E minha mãe que não tinha nada a ver com isso, aguardava silenciosa o dia que seria chamada para consultar um oftalmo, para lhe clarear a visão. Nada disso. Não havia tempo para atender o povo, o mesmo povo que colocou cada político a onde está. Mas tinham outras prioridades, como assaltar o país. Minha angústia, minha dor era maior a cada contato com ela. Abraçava-a, mas não podia emprestar meu olhar, só me restava abraça-la. Chegou num ponto que não mais suportei, quando tirei férias fui para casa, catei meus dinheiros e a levei numa clínica particular, após exames, era possível reverter a situação. Conseguimos, e passei a Páscoa mais linda da minha vida, olhando minha mãe me olhar, me vendo e vendo o mundo, este mesmo mundo que parece em estado ebulição nos quatro cantos da Terra. Mas éramos nós e a luz que emanava de minha mãe, o sorriso e o abraço, agora nos olhando, nos vendo. Pedi a Deus, por várias noites antes de dormir, pedia um milagre e ele me deu força e coragem e luz no meu caminho e ideias, que me permitiram pagar pela cirurgia. Hoje penso em minha mãe, e não sinto mais aquela dor no peito, aquela angustia...só sinto alegria ao vê-la andar, ao vê-la me olhar e sorrir.

sábado, 8 de abril de 2017

50 ANOS DE SOLIDÃO





               “Para muitos, 1967 foi o melhor ano da história do rock. Pode ser um exagero, mas certamente o rock viveu um de seus melhores 12 meses. Motivos para isso não faltam: os Beatles lançaram o disco que mudou o mundo, Jimi Hendrix apareceu, os Doors estrearam, o Velvet Underground colocou o seu primeiro álbum nas lojas, o Pink Floyd veio ao mundo, o Cream lançou a sua obra-prima. A explosão da psicodelia e do Flower Power fizeram do ano uma grande celebração na cronologia da música”

              Em 09 de abril desse ano (1967), eu nasci numa pequena cidade no Sul do Sul da América do Sul...tomei consciência da minha existência, alguns anos depois, dos primeiros anos, memórias perdidas, lembranças escassas na memória afetiva. Vinguei, diria meu falecido avô, e desde lá passaram-se 50 longos anos, ou rápidos, não consigo mesurar...”Você não sabe o quanto caminhei, para chegar até aqui...” 50 anos de Solidão, nem tão só, mas é um título poético deprê, que combina comigo, em boa parte destes 50 anos e faz uma alusão ao livro 100 anos de Solidão do Gabriel Garcia Marques, marcante em minha vida, dentre muitos. Estes, os livros, sempre foram parceiros e amigos presentes na minha existência. Minto também no título, por ter muitos amigos, muitos ao longo destes anos, mas todos temos nossas vidas, e não sabemos o que vai acontecer quando dobrarmos a esquina: seguimos nossos destinos e naturalmente, os caminhos se bifurcam, o mundo é tão vasto “mundo, mundo, vasto mundo, a se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Confesso que não sou bom em preservar amizades, fui chamado de pior melhor amigo, por uma amiga querida, justo por esquecer as datas de aniversário, o que é importante para ela. Ao contrário de mim, que sempre fugi nas datas de aniversário, anos em que passei só, longe da família ou amigos, esta amiga sempre fez questão da comemoração. Hoje sei e entendo e aceito, esta alegria de conquistar mais um ano, apesar de estarmos morrendo a cada segundo que passa, a partir do nosso nascimento. A luta da vida e da morte, foi o que sempre aconteceu durante anos...por enquanto a vida vence, e faço de tudo para continuar assim, uso remédios, pílulas para alegria, pílulas contra a ansiedade, pílulas para dormir, tudo com acompanhamento médico e terápico ; quando vejo a fragilidade do muro de vidro que construí para me proteger. “Sigo adiante, misturo-me a vocês...” ou me fecho no quarto, na tentativa de dormir e ter um sonho bom, fugindo da realidade dura e crua, vendo toda esperança deixar de existir, se esvaindo, como areia entre os dedos. “Feliz aniversário, envelheço na cidade; feliz aniversário, envelheço na cidade” Mas a maturidade que adquiri nestes anos, me faz ver uma possibilidade de viver melhor, entender melhor, ser um humano melhor, com falhas, mas muitos acertos. Retalhos, pedaços de um grande quebra-cabeça, onde peças importantes não se permitiram encaixar, tornando-me assim, incompleto, mas com o coração cheio de esperança, a mesma que pode se esvair entre meus dedos...se for como a canção: “ninguém consegue ser feliz sozinho” , estou condenado a eterna solidão (pausa dramática), fecho os olhos e vejo meu cão adotivo Teimoso, feliz ao me ver chegar. Meu coração consegue amar, apenas não teve chance, ou talvez a profecia ou maldição faladas um dia, se cumpra, quando chegar aos 57 anos...tenho medo de não existir para conhecer o amor de minha vida, enquanto isso, aceito de bom grado , a “parte que me cabe deste latifúndio ” feliz  aniversário para mim, feliz aniversário.
"Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
Com minha própria lei."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NÃO CABE NO POEMA


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Não há vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

 by Ferreira Gullar

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOSSO CAOS DE TODO DIA


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Acreditava que não podia piorar. As cenas eram terríveis quando chegou ao local, eram de dor e desespero, pessoas desmaiando, outros desesperados por não conseguir respirar e muitos espumavam pela boca, como cães raivosos, mas sem forças para atacar, apenas se contorciam no chão. Todos a espera de um salvador, qualquer um que pela mão os encaminhassem para um lugar sem guerra, sem morte prematura de jovens e crianças. Onde mulheres e velhos fossem respeitados, e os homens, honestos e trabalhadores. Mas por enquanto é só o que resta. As equipes de socorro tinham tantos para socorrer que era difícil reconhecer quem precisava mais e imediatamente de tratamento. No ar ainda podia se sentir aquele cheiro da morte e de gases venenosos, e ruídos ao longe que faziam tremer os já frágeis e semidestruídos prédios. No hospital, que mais parecia uma campo dos perdedores, após o fim de uma guerra. Mas fim é uma possibilidade remota e incerta. Em leitos improvisados, alguns até no chão, enfermeiros e médicos faziam o impossível para perder o menor número de vítimas civis. Mesmo assim, continuavam os ataques, que pareciam cada vez mais próximos do hospital. Vermelho era a cor que tomava conta, do cinza das pedras da rua, dos prédios semidestruídos e os destruídos, com certeza, vítimas mortas e agonizantes nos destroços, do que foi uma casa de uma família feliz um dia. Agora um amontoado de pedras. O ritmo é corrido no hospital, cada segundo pode custar mais uma vida. Acompanhando tudo, como se fosse um filme de terror e guerra, reza baixinho enquanto carrega no colo um menino encontrado desmaiado, com o corpo coberto de terra, para o hospital. Podia sentir o coração pulsando daquele pequeno corpo infantil. Quando estava sendo atendido, mais uma explosão, mas desta vez era no hospital. Então percebeu que podia ficar pior, muito pior.

quarta-feira, 29 de março de 2017

CONTAR ESTRELAS

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Quase cansei de te esperar, então resolvi contar estrelas e deixar que meus pés tocassem as águas do riacho que passa, como o tempo, como minha vida, como os amigos deixados para trás, e os que me deixaram. Agora eu sei que a distância e a internet não fazem muito sentido. Existe o abandono virtual, de quem escreve, de quem lê, de quem olha. As escolhas que fizemos ou deixamos de escolher, deixar fluir. Estou na estrela 1001, e quase adormeci. Uma verruga no dedo, diria minha avó, por apontar o céu estrelado. Meu inferno astral está chegando ao seu ápice, espero sobreviver depois disso, como sobrevivi até hoje. Estou só, isto é fato, mas não me queixo. De novo minha falecida avó, antes só do que mal acompanhado. Talvez seja eu a má companhia, talvez não tenha nada a dizer sobre minha vida, sobre as estrelas, como diria Olavo Bilac:



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? "

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas".

by Olavo Bilac

terça-feira, 21 de março de 2017

MEU AMOR SE MUDOU PRA LUA

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Paula Toller



Cai a tarde sobre os ombros da montanha onde me largo
O dia não foi, a noite o que será
Meus cabelos pela grama e eu sem nem querer saber
por onde começo e onde vou parar

Na imensidão do amanhã
meu amor se mudou pra Lua
Eu quis te ter como sou
mas nem por isso ser sua

Vou adiante como posso, liberdade é do que gosto
O dia nasceu, azul é sua forma
Já não quero mais ser posse, fosse simples como fosse
Um dia partir sem ganchos nem correntes

Façamos um brinde, façamos um brinde
à noite que já vai chegar
Façamos um brinde, façamos um brinde
ao vento que veio dançar

by Paula Toller 

segunda-feira, 20 de março de 2017

JORGE LUIS BORGES E A CEGUEIRA

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Jorge Luis Borges
...
Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.

Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.

O sr. já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem vai me molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém lhe ameaça de morte, você não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.
...

ps. O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985.

ps2. Estou travando uma batalha com a cegueira que tomou os olhos de minha mãe. Minha mãe sofre de diabetes e faz tratamento na Saúde Pública, mas não há oftalmologista, ou há, mas se leva anos, eu disse anos, para uma consulta. Minha mãe estava na fila, mas não suportei ver seu estado, que sobrevivendo de um AVC fraco, foi-se a visão e veio uma profunda depressão. Catarata nos dois olhos...tive de procurar clínica e médicos particulares, com bastante dificuldade, mas nada importa mais que a minha mãe me ver (egoísmo meu) e ver sua vida, que pulsa naquele coração generoso. Existe a possibilidade de reverter esta situação, embora seus olhos estejam tomados de catarata, um dos exames verificou que não há prejuízo nos olhos, podendo fazer a cirurgia.

sexta-feira, 17 de março de 2017

E O AMOR RESTOU INÚTIL



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"Por isso hoje estou tão triste
Porque querer estar tão longe de poder
E quem eu quero está tão longe
Longe de mim"

by !IRA e Pitty



          Alguém teria de tomar uma atitude, não se poderia viver assim, embora o amor fizesse parte ainda daqueles dois. Era inevitável não partir. Com as malas prontas e o táxi esperando, partiu. Chorava quem partia. Chorava quem ficava. A teimosia e o ciúme corroeram aquela doce relação. Um casal bonito de se ver, quando aos domingos, cedo estavam na pracinha do condomínio tomando chimarrão (bebida típica de um deles). Conversavam, e educados cumprimentavam a todos, dando atenção a quem perguntasse algo. Assim passavam todos os domingos, felizes e sorridentes, até o Sol começar a morrer lá no horizonte...era como se os dois deixassem suas almas morrerem com o Sol, e não acreditavam no poder da Lua. E assim que o Sol sumia, eles juntavam suas coisas esparramadas pelo gramado, e desapareciam condomínio adentro...o táxi partiu rumo ao aeroporto. Dentro do avião, quem partiu, olha pela janela e vê a Terra se afastando. Uma vida passada. Dentro de casa, quem ficou, olha pela janela, observa o céu e vê o rastro de um avião.

          Nem sempre o amor estará acima de tudo, haverão escolhas, ou amor ou saúde. Acredito no amor verdadeiro, o amor das mães, até no amor dos cães, mas como confiar no amor do outro, dito de sua boca, será que saiu do coração ? Ou é mais uma banalidade com fins sexuais ? O ciúme como um cupim vai comendo por dentro, e quando se vê, onde existia uma madeira forte, nada mais resta senão farelo e o fim de mais uma aventura de amor. A teimosia, também foi minando a relação. Eu quero o Sol. Eu quero a Lua. Se podemos ter os dois, porque não ceder um pouco hoje e ver o Sol, ceder mais um pouco e ver a Lua. Uma bela noite de amor que não haverá mais, assim pensa quem ficou, assim pensa quem partiu. “E o amor restou inútil...”


quinta-feira, 16 de março de 2017

SE NÃO TEM CORAÇÃO ?


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Não Tenho Medo da Morte

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida

by Gilberto Gil

quarta-feira, 15 de março de 2017

ALGO FLUTUANTE

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Sobre a ponte, olhava o rio e pensava na vida, no tempo que estou por aqui...qual o próximo passo ? Eis que surge ao longe no rio, algo flutuante; senti um pouco de inveja, não sei nadar, muito menos boiar...gosto dos filmes bíblicos onde aparece Jesus caminhando sobre as águas. Continuei a observar aquele corpo estranho, não corpo humano, mas um tronco de árvore talvez, até mesmo um pequeno barco à deriva. Como se fosse permitido um rio carregar um corpo humano, boiando em suas águas...foi o que vi, quando aquele corpo inchado passou sob a ponte. Fiquei pensando da vez que corri até a ponte em um rio que passava pela cidade em que morei na infância...queria morrer, me jogar, ir para o fundo e depois de cinco minutos, subir à tona e boiar ao sabor do rio, esquecendo de tudo, família, amor abortado, jardins que não floresceram, embora eu me empenhasse com os cuidados, quando a cama me deixava sair dela, quando conseguia me arrastar até a porta dos fundos e pegar o regador. Absorto nestes pensamentos, quase esqueci que um corpo morto boiando passou sob a ponte, sob meus pés...iniciou um burburinho, cochichos, e fofocas, pois aquele corpo chegou na prainha do lugar, e da ponte pude perceber a aglomeração em volta ao corpo, que há pouco tempo deslizava pelo rio, assim, como me perdia em pensamentos. Sobre a ponte pude ver o cadáver boiante encontrar um porto seguro, nas areias daquela prainha. E eu ? O faço aqui ? Senti uma necessidade urgente de ver aquele morto. Pelo acostamento, fui descendo até as areias brancas da prainha, e logo já me misturava com a multidão aglomerada envolta do corpo. Ali. Estático. Mudo. Parado. Morto. Era negro e tinha um pequeno bigode, podia se ver no rosto inchado, assim como o resto do corpo, que era jovem...respirei aliviado, apesar de quase achar que era eu, daqui do alto da ponte.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

POR UMA LÁGRIMA TUA


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Lágrima

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar

  by Amália Rodrigues

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

OLHOS NEGROS


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Encontrei teus olhos negros hoje pela manhã e não acreditei, como não acreditei na violência nos presídios, nem das mortes inocentes nas cidades...senti um punhal atravessar meu peito e tocar meu coração. Enquanto olhava teus olhos de Medusa, paralisei. Os dias comuns se arrastam, repetindo o nascer e morrer do Sol todos os dias. Não sabia que eles eram tão negros, como noite sem luar, mais negros que todos os meus pesadelos juntos. Desci as escadas em paz com meu coração, ele pulsa, ele vive. Teus olhos negros nada me prometem, apenas me olham e me deixam nu, devolvo o olhar e vejo tua alma flutuando sobre nossas cabeças. Recolho-me em silêncio e lembro do domingo em lágrimas e ninguém para me oferecer um lenço ou me abraçar enquanto engolia o choro, como criança assustada, e me aquecia sentindo teu olhar sobre mim. Não busco o amor, não busco um abraço nem beijo, apenas um par de olhos negros que me olhem, e me vejam e conheçam meu sorriso. Um encontro pode ser um desencontro, e nunca mais ver teus negros olhos, apenas uma vaga lembrança que ira se apagando com o tempo. Estou em silêncio, e nada direi, apenas procurarei olhar teus olhos negros, como a treva que tomou conta de meu coração, mas sem o brilho que vem da tua alma e jorra pelos olhos negros, que me perseguem. Eu espero, contarei os dias, as noites e descerei e subirei as escadas que podem me levar ao céu ou ao inferno. Encontrei teus olhos negros pela manhã, e não consegui dizer nada, apenas devolvi o olhar e suspirei.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

SONO, SONHO E PESADELO


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Quantas noites ainda terei de passar aqui sozinho e com frio (devo estar delirando, passa dos 30 graus lá fora), minha visão é turva e não escuto muito bem. Perdi a conta dos dias deixado aqui, neste lugar que não consigo identificar as vozes e as caras que caminham em circulo, batendo em mim. Pensei no Expresso da Meia-Noite, mas aqui posso caminhar nos corredores sem fim e sem cor, até cansar e desmaiar e acordar na cama. Ninguém me diz nada, nada que faça sentido, ora se nega, ora se afirma. Estou confuso. Tenho apenas o travesseiro como confessionário, mesmo porque não teria o que dizer a um padre, e se dissesse, nada ele poderia fazer. Extrema unção? Talvez, daqui há muito tempo...deitado agora, de olhos fechados posso ouvir a chuva lá fora. Posso sentir as árvores se debatendo, como se dissessem algo, me mandassem um sinal. Que o tempo está passando, e a vida também, como uma bola rolando ladeira abaixo, rumo ao indizível, apenas se deixando levar. Poderia ler uma poema da Ana Cristina César ou ouvir Cássia Eller, mas meus sentidos estão perdidos entre o sono, o sonho e o pesadelo, enquanto a noite não passa, enquanto eu não passar...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

CINZENTO CÉU

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SPLEEN

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
 Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

by Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MORTE ÍNTIMA


(Me perdoem os que acham que me repito: eu sei que já disse, e escrevi, muitas dessas coisas. Mas eu retomo aqui, porque não me cansei delas – e porque a cada dia me parecem vivas, e reais) by Lya Luft – do livro O Tempo É Um Rio Que Corre

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O Bestário, ainda lembro do livro que me foi deixado por um primo que só via durante as férias, lá nos tempos da carochinha. Lembro da fascinação ao conhecer o universo daquele escritor, Cortázar. Devo ter gasto o livro de tanto ler aquelas mágicas histórias. Lembro do calor que senti quando li um conto e estava dentro de um ônibus seguindo uma estrada de chão, poeira, calor, náusea pelo perfume das flores que uma mulher carregava. O ponto final era o cemitério. Agora penso, sempre a morte, sutil, silenciosa, cruzando meu caminho. Mas desci antes, na poeira, no Sol, na estrada. Esta lembrança é de muito tempo depois de nunca mais encontrar aquele primo. Acaba a infância, e nós procuramos outros rumos menos infantis. Era meu terceiro emprego conseguido por um tio, em menos de um mês. Procurei o endereço, adentrei uma pequena ruela com uma seta onde estava escrito: Rua Gris. Justo a que procurava, precisava desse emprego, não poderia falhar com meu tio mais uma vez, um cliente dele haveria de simpatizar comigo. Achei o número e a casa, que me pareceu um pouco assustadora, tão grande, imponente, já deve ter tido seus áureos tempos , agora é apenas uma imensa casa assustadora. Só precisava agradar o cliente de meu tio, lendo algo que ele quisesse...Aguardei em uma sala imensa, com cortinas puídas, assoalho que fazia um estranho ranger, foi quando percebi que alguém vinha ao meu encontro. Lentamente, como se medisse os passos, o tempo. Parou na grande porta enquanto me olhava, analisava. Meu coração acelerou, e pelo olhar já fiquei angustiado. Será que ninguém me quer ? Continuou me olhando e me estendeu a mão. Quebrou o gelo. Disse-me que precisava de poesia que falassem em morte, pois era a única linguagem que o satisfazia. Falei que achava que a poesia salvaria o mundo. Olhou-me com um sorriso malicioso nos lábios e disse-me. Quanta pretensão. Baixei os olhos e insisti que acreditava de verdade. Um silêncio. Então me disse, começa com Augusto dos Anjos. E prontamente recitei meu favorito:



Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a ingratidão – esta pantera

Foi tua companheira inseparável!



Acostuma-te à lama que te espera!

O homem, que , nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.



Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.





Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!



Os Versos Íntimos saíram de minha boca como quem entrega o ouro ao inimigo, mas não poderia evitar, após lançados os versos ao som concreto, nada mais será desfeito, então o mundo será salvo. No sétimo dia de leituras, meu tio me chamou e então explicou o sentido de meu trabalho. Eram leituras no leito de morte, eram pessoas condenadas a morte por algum motivo. E eu as fazia felizes por sentirem uma voz, uma outra voz acompanhando, lendo, falando, que não a voz da própria morte, que já se manifestava em seus leitos há muito tempo. Tenho um trabalho, nem triste, nem alegre, um trabalho em que tento impor minha voz, sobre a própria voz da morte.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O SORRISO DA MORTE


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É apenas uma pancada de chuva de verão, logo passa; pensei em minha avó que costumava dizer da rapidez com que a chuva de verão chega e vai embora. Agora, eu , aqui no meio do caminho sinto as primeiras gotas de uma água gelada e logo estou encharcado, com frio e feliz, pois longe do olhos de minha avó, caminhava no meio fio, que formava uma corredeira. Outras crianças apareceram de todos os lados, parecia que aquele meio fio era o rio principal das brincadeiras. Como não gostei da companhia – meu destino é andar só como o Kung Fu de David Carradine – segui com meus passos molhados, observando as árvores, que pareciam bem felizes, talvez porque o vento fosse fraco e a chuva abundante. Pensei: É apenas uma pancada de verão. Com os óculos embaçados tateava a cada passo que dava, quando percebi a água estava em meus joelhos, olhei em volta e estava ilhado, só eu e um mundo de água. Pensei no dilúvio e nos cinco minutos que se leva para morrer afogado. Embora a morte sempre estivesse junto de mim, me seguindo, se esgueirando por entre paredes e postes e pessoas, mas nunca me perdendo de vista. Eu não sabia, até aquele momento em que a água ultrapassava meus joelhos, e eu perdido sem saber para que lado seguir. Foi então que a vi inteira pela primeira e talvez última vez. Não me pareceu assustadora como sempre me pintaram, não tinha uma foice, seu rosto não era uma caveira, e suas vestes não eram negras. Pelo contrário, me pareceu gentil ao indicar um caminho que não conseguia ver, face a água, que a estas alturas passava de minha cintura. Quando cheguei perto, ela me sorriu, pensei: o sorriso da morte. Não tive medo, nem a sensação de enfraquecimento para a morte, pelo contrário, me senti vivo e feliz, pois atravessei aquele mar de água de verão na rua, como um cego, tateando o chão, apenas atendi o chamado da morte, que desapareceu assim que estava numa calçada seguro. Pensei em minha falecida avó, então percebi que não era a morte, mas um anjo, com um largo sorriso, que me trazia mais uma chance de viver e tentar ser feliz.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

É MELHOR FAZER UMA CANÇÃO

  • Resultado de imagem para CAETANO E ELZA SOARES
    Elza Soares e Caetano

  • LÍNGUA


  • Gosto de sentir a minha língua roçar
    A língua de Luís de Camões
    Gosto de ser e de estar
    E quero me dedicar
    A criar confusões de prosódia
    E um profusão de paródias
    Que encurtem dores
    E furtem cores como camaleões
    Gosto do Pessoa na pessoa
    Da rosa no Rosa
    E sei que a poesia está para a prosa
    Assim como o amor está para a amizade
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E deixa os portugais morrerem à míngua
    Minha pátria é minha língua
    Fala Mangueira
    Fala!
    Flor do Lácio Sambódromo
    Lusamérica latim em pó
    O que quer
    o que pode
    Esta língua
    (3X)


    Vamos atentar para a sintaxe paulista
    E o falso inglês relax dos surfistas
    Sejamos imperialistas
    Cadê? Sejamos imperialistas
    Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
    E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate
    E Xeque-mate, explique-nos Luanda
    Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
    Sejamos o lobo do lobo do homem
    Sejamos o lobo do lobo do homem
    Adoro nomes
    Nomes em ã
    De coisa como rã e ímã...
    Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
    Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
    Arrigo Barnabé

    Incrível
    É melhor fazer uma canção
    Está provado que só é possível filosofar em alemão
    Se você tem uma idéia incrível
    É melhor fazer uma canção
    Está provado que só é possível
    Filosofar em alemão
    Blitz quer dizer corisco
    Hollywood quer dizer Azevedo
    E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
    Meu medo!

    A língua é minha Pátria
    eu não tenho Pátria: tenho mátria
    Eu quero frátria

    Poesia concreta e prosa caótica
    Ótica futura
    Samba-rap, chic-left com banana
    Será que ele está no Pão de Açúcar
    Tá craude brô, você e tu lhe amo
    Qué que'u faço, nego?
    Bote ligeiro
    arigatô,arigatô
    Nós canto falamos como quem inveja negros
    Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
    Livros, discos, vídeos à mancheia
    E deixa que digam, que pensem,que falem

    by CAETANO VELOSO

    terça-feira, 10 de janeiro de 2017

    NO FUNDO DOS OLHOS


                  Resultado de imagem para O TEMPO

                    Demorei para perceber que não havia mais nada a ser dito, apenas semear as sementes de melão e esperar pela fruta. Haverá um tempo, entre a semeadura e a colheita. O tempo da espera e o tempo da fome. As loucas palavras que deixaram de ser ditas, os olhos que olhavam no fundo dos olhos do outro, que calava-se. Um abismo de silêncios nos manteve afastados, mesmo quando ainda estávamos juntos, e já nos perdíamos...nossos passos para lados opostos, nosso destino sendo traçado e dizendo que não haverá união nem final feliz. Tropeços e quedas e ódios e vazios. A náusea impediu o beijo da morte ou de amor (mas o amor não existe, nunca existiu) . Será ? Sempre negaremos, tudo não passou de um acidente temporal. O tempo gozando de nossa cara, criando expectativas e entregando ilusões.

                   Gostamos de nos iludir, ficar de fora e não se comprometer. Também gostamos de furar fila, entrar antes do outros e somos por demais invejosos. Subornamos e somos subornados, em nome de mais conforto, esquecendo-se do mal provocado para si e os outros tantos milhões de brasileiros, abandonados a própria sorte (ou seria azar?).

                   O corpo virou moeda de troca e interesses e desumanidade e, assim, perdemos nossas filhas para o mundo e nossos filhos aumentando cada vez mais a caótica vida carcerária neste país; onde quem entra ou se aperfeiçoa no crime ou é morto (em menos de 15 dias quase cem mortos nos presídios do norte). As cidades brasileiras nunca viveram um

    período tão perigoso, tanto na rua como dentro de nossas casas, não temos mais segurança, e contamos com a sorte, ou Deus, que estará sempre de braços abertos para

    nós, ou não.

                   Enquanto o mundo se destrói, tento respirar e ficar quieto nesta minha ilha de isolamento e solidão. Por vezes penso não suportar tudo isso ou meu nada ou a falta de teu olhar, que não olhava o fundo dos meus olhos, então me calei.