sexta-feira, 16 de novembro de 2018

COMO NUM SONHO/PESADELO



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"Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo"

by Cazuza






                              Outro dia uma amiga me falou que as pessoas magoam e nem se dão conta, ou são tão dissimuladas que parece que não falaram ou não fizeram por mal, elas chegam, te destroem e seguem suas vidinhas, medíocres, mas vidinhas. E a gente que se vire com a ofensa, a mágoa, a palavra ríspida, ou aquele tom de desconsideração ao falar com alguém...esta minha amiga. Entendo o que ela me disse, demorou um pouco, mas entendi, ao ser magoado e quem fez, seguiu como se nada houvesse, enquanto que eu, em choque, parei, com vontade de chorar, me sentindo machucado, pequeno e triste.


                           Não tenho mais onde ir, onde ficar, onde dormir. O Eremita se faz presente e só, seguindo apenas o rastro de sua luz, e eu seguindo o rastro de minha solidão. Todos os caminhos são de pedra, de espinhos e cacos de vidro…como um faquir sigo adiante, sangrando os pés e misturando-me a massa disforme que se junta, antes do precipício sem fim. Já não entendo há muito tempo as batidas descompassadas de meu coração, e esta náusea quando respiro profundamente, como se fosse vomitar um alien, que devora pouco a pouco minha vida, de dentro pra fora. Se alimenta especialmente de meu coração, que já sangrava quando ele chegou, como um tubarão seguiu o cheiro de sangue, e como um zumbi chegará em meu cérebro.


                              Outro dia caminhava feliz no caminho das pedras, espinhos e cacos de vidro, e como Cristo flutuava, sem sangrar meus pés, e meu coração leve e inteiro...meus olhos brilhavam ao apreciar o verde das florestas e o colorido das flores, logo ali...como num sonho.


                              Outro dia, já nem sei mais...


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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

ANGÚSTIA DAS PEQUENAS COISAS RIDÍCULAS


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Poema em Linha Reta




Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



 by Fernando Pessoa




ps.
O mundo me dá vontade de chorar, ao ver crianças mortas em guerras, mortas de fome, caminhando errante com seus pais pelo mundo a procura de abrigo, que não existe mais. Quase chorei no último capítulo de uma novela, o amor correspondido me faz chorar de alegria, não o amor que tive, só eu o tinha, só eu amava e sofria, só eu...mesmo amando o que não me amava, eu chorava. Não se escolhe. Mas o que são poucas lágrimas comparadas ao pranto das mães que perdem seus filhos pela violência, pela intolerância, pelo tráfico… Mas não consigo chorar por mim, que morre um pouco mais a cada dia, a cada noite insone. O mundo, este que está aí, não é o mundo que escolhi, mas o mundo onde nasci e passei a viver, até aqui. Minhas dúvidas, meu coração partido e seco, minha vida, minha morte...a cada aniversário mais próximo me sinto dela, mais envolvido. Angústia por coisas tão pequenas, diante de toda a humanidade, é nada.


terça-feira, 13 de novembro de 2018

MELODICAMENTE LIMPO


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Deus

deus não existe.
mas se ele existisse,
ele viveria no céu acima de mim,
em uma nuvem grande e gorda lá em cima.
ele é mais branco que o branco e mais limpo que o limpo.
ele quer me alcançar.

deus não existe
mas se ele existisse eu sempre o notaria.
se preparando em seu quarto aéreo.
ele está escolhendo suas luvas tão brutalmente.
ele quer me tocar.
estou andando humildemente por uma rua estreita.
puxando meu colarinho que cresce.
eu o conheci uma vez.
realmente me surpreendeu.
ele me colocou em uma banheira.
me deixou melodicamente limpo. realmente limpo.

para criar um universo você precisa
provar o fruto proibido.
ele disse oi. eu disse oi. eu continuei limpo.

Deus não existe.
mas se ele existisse ele gostaria de descer daquela nuvem.
primeiro dedos de marzipan do que mãos de mármore.
mais silencioso do que o silencio e mais lento que a lentidão.
mergulhando em minha direção. meu colarinho é sala imensa para duas mãos,
elas começam no peito e se movem lentamente para baixo.
eu pensei que já tinha visto de tudo.
ele não era branco e fofo.
ele tinha costeletas.
ele tinha costeletas. e um topete.
ele disse oi. eu disse oi. eu continuei limpo. eu estava melodicamente limpo.
eu estava surpreso.
do mesmo jeito que você iria ficar.

deus deus. ele não existe. deus deus.


Deus (tradução)

The Sugarcubes

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ps.
Stan Lee morreu e com ele foi uma parte perdida de mim, o melhor que poderia guardar, poder, força, vida…..agora 'meus heróis morreram de overdose'. Nunca mais voar sobre as nuvens ou mergulhar no mais profundo mar do meu inconsciente e sobreviver a minha loucura. Já não caio e nem ralo o joelho como outrora, na 'minha infância querida que os anos não trazem mais'. Stan lee morreu e o que fazer com todos este gibis de anos e anos, sonhando ser meu próprio super herói, fazendo minha própria salvação e do mundo. Mas o mundo é muito grande, e eu sou tão pequeno, mesmo herói, muito pequeno e feito de papel colorido, agora dentro de caixas de papelão, esperando a incineração.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

CHÁS


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CAMOMILA
Capim-cidreira, camomila, melissa, hortelã e funcho...esta mistura de chás é uma boa fórmula para acalmar, mesmo o mais revolto dos mares de pensamentos, abrandar a mais feroz das tempestades e domar até o vento Minuano nos pampas do Sul. Como não existem mais cartas, recebi um e-mail ou um pombo correio caiu do meu teto, em minhas mãos. A luz difusa entra pela janela, os vidros, formando diversos arco-íris em volta da xícara de chá, sobre a mesa, que me aguarda, me acalma, me...antes de entrar, fui colher as ervas do campo para fazer o chá, que me aguarda sobre a mesa. Não havia ninguém caminhando, nem na pequena floresta do final da rua, onde encontrei todos os tipos de ervas, de chás e flores do campo, de paz e harmonia e um silêncio que não condizia com o local, apenas o leve barulho do vento lambendo as folhas verdes das árvores. Enquanto minha alma submerge num mundo que não escolhi, recebendo todos os olhos malditos e agouros e pragas...não sei se choro ou me jogo no chão, se grito ou enfio a cabeça debaixo de um travesseiro. Quando nasci, com certeza era folga dos anjos da guarda e fiquei sem nenhum. Agora entre a cruz e a espada, entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre partir ou chegar...a vida não é fácil, assim como numa propaganda de margarina, assumimos compromissos depois de adultos. A liberdade que se pensava na infância, de que adulto tudo poderia, quanta ilusão...agora adulto, percebo que tudo não passou de uma grande mentira, um imbróglio do tempo, nos confundindo em nossas mentes que não dá mais tempo, não há mais salvação…quando não se tem amigos que pertencem a nossa mesma família de espíritos, mas quando se tem, tudo é normal e equilibrado...então sigo lentamente até a mesa, e sento na cadeira e fico observando o vapor que emana da xícara de chá de capim-cidreira, camomila, melissa, hortelã e funcho...
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HORTELÃ

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

VÉSPERAS


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Vésperas de eleição, confesso que ando meio alheio a tudo que remete a política. Estou alienado. Mas tudo é política. Seguindo o barco, ouço o murmulhar das ondas batendo no casco...desligo o torneira que lavava uma garrafa térmica, sim, térmica, uma das invenções destes tempos, já banalizada. Sem o barulho da água saindo da torneira, ouço o fervilhar de lava, de um vulcão, no árido nordeste, como se não bastasse a fome, a seca. É só a água fervendo, desligo o fogão, o gás...Eis que ouço ao longe, como se fosse uma infância perdida, há muito tempo. É um discurso inflamado, que ecoa na cozinha onde me encontro, vindo lá do fundo, de dentro, de um celular, de um casarão. Penso na infusão, gosto disso desde que vi num filme numa madrugada dessas de insônia. Na infusão, do chá que gostaria de fazer com ervas do campo, colhidas á pouco tempo por minhas mãos em um vasto jardim. Pisco, e estou lendo antes de abrir o pequeno pacote colorido de vermelho: chá de maçã. Meus ouvidos me levam a ver meu pai na cozinha ouvindo seu rádio, e preocupado com os colegas de trabalho no sindicato, devido a perseguição de ditadura que comandava o país naquele tempo. Eu, nem tão pequeno para entender, nem tão grande para sentir a atmosfera daqueles tempos de chumbo. Coloco o saxe na garrafa térmica, e continua o discurso de um candidato, não mais lá na minha infância, mas agora no meu mundo adulto de hoje. Peguei minha garrafa térmica e corro pelo corredor, de volta por onde vim, com um peso de angústia no peito. Não acredito nos meus ouvidos, como fantasmas em forma de memórias tristes, de dor e tortura, de morte e de vala coletiva de cadáveres. De pessoas que não apareceram até o dia de hoje. Corri pelo corredor, tranquei-me na sala e voltei, aos poucos, aos batimentos cardíacos normais, ainda não aconteceu. Vésperas de eleição...





ps.
Caríssimo amigo Xaverico, muito me alegra tua presença e comentário neste blog, obrigado. Este post traduz um pouco minha angústia. Adoro televisão, desde muito pequeno, tenho muitas memórias afetivas...concordo em gênero, número e grau com teu comentário. Vivemos tempos delicados, de fúria e paixões radicais. Sim, merecemos ser felizes...eu aqui agradecido com tua amizade virtual/de verdade e desejo que esta mesma felicidade que merecemos seja imensa na tua vida. Carinho respeito e abraço.




segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Já estou vendo TV como companhia


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LEVE DESESPERADO

Eu não consigo mais me concentrar
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
É importante, todos me dizem
Mas nada me acontece como eu queria

Estou perdido, sei que estou
Cego para assuntos banais
Problemas do cotidiano
Eu já não sei como resolver

Sob um leve desespero
Que me leva, que me leva daqui

Então é outra noite num bar
Um copo atrás do outro
Procuro trocados no meu bolso
Dá pra me arrumar um cigarro?

Eu não consigo mais me concentrar
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar
Já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero
Que me leva, que me leva daqui

Talvez se você entendesse
O que está acontecendo
Poderia me explicar
Eu não saio do meu canto
As paredes me impedem
Eu só queria me divertir

As paredes me impedem
Eu já estou vendo TV como companhia

Sob um leve desespero
Que me leva, que me leva daqui

Sob um leve desespero
Que me leva, que me leva daqui

by Capital Inicial


ps.
Por fora, bela viola, por dentro pão bolorento. Muito ouvi isso na minha infância, e até nos dias de hoje, está numa música da Pitty (que eu amo), inclusive. Assim me sinto, assim me apresento aos olhos dos que me cercam. Ocorre que não sou belo por fora, um pouco feio e por dentro não tenho bolor, mas dor, angústia, raiva, solidão, insatisfação com o que tenho e vivo. Seria tão simples, acabar com isto, com estes sentimentos e com minha feiura, mas falta-me coragem. Vou arrastando, me arrastando, tentando amar, tentando viver. Um grande palco é a vida e estou encenando minha felicidade, como se faz no facebook, onde se mostra a bela casca, enfim. Meu blog querido, os remédios me mantém assim, meio abobalhado para tudo, esquecido de minha dor...vou seguindo na escuridão dos montes, sonhando com penhascos, sonhando em voar para os céus, como um Ícaro louco, para o Sol derreter minhas asas, e eu cair nas profundezas da Terra. Mas me contento em ficar trancado em casa tendo a televisão como companhia...

 TUDO QUE VAI

Hoje é o dia
Eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico à vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer

Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais

Salas e quartos
Somem sem deixar vestígio
Seu rosto em pedaços
Misturado com o que não sobrou
Do que eu sentia
Eu lembro dos filmes que eu nunca vi
Passando sem parar
Em algum lugar.

Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais

Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais

Quanto tempo, eu já nem sei mais o que é meu
Nem quando, nem onde...

by Capital Inicial



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

ENQUANTO EXISTO


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Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar”



by Adriana Calcanhoto



                Tenho uma querida amiga que diz, que ao termos certa idade adulta começam as dores, e sempre saberemos que estamos vivos, basta logo ao acordar, sentir uma dor, este é o sinal...sempre ríamos quando falávamos disso. Hoje entendo bem esta piadinha real. A dor prova que existo, logo penso ? Dane-se Descartes, apenas existimos e deixamos de existir, claro, todos temos uma existência, um tempo para ser vivido, antes da inexistência. Existo, penso e logo inexisto. “Lá mesmo esqueci que o destino Sempre me quis só...” No meu tempo de vida, que ainda gozo, sempre tive amigos sinceros e de coração, mas sempre estive só, ou melhor, ficava só, partindo para minha vida, assim como este amigo parte para a sua. A solidão foi se tornando inevitável e parte de minha vida. Mas não via com bons olhos, até alguém me dizer o que represento no Tarot, ou, que sou representado pela carta de número 9 do Tarot. Esta carta simboliza recolhimento, meditação, autoconhecimento, iluminação, concentração, prudência, isolamento e reavaliação. Sei que estou mais para isolamento e reavaliação, do que os outros predicados. O fato é que acalmou meu coração partido, costurado, remendado e quase cicatrizado nestes longos anos que estou vivendo, e mesmo só, adorando. “Não quero mais a morte, tenho muito que viver, vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer”, sussurra em meus ouvidos esta linda melodia, Milton Nascimento. Tenho saudade daquele tempo das amizades juvenis, brincadeiras, risos, confidências, segredos e liberdade, muita liberdade. Escolhi meu caminho e segui, por vezes só, por vezes acompanhado, e novamente só, até os dias de hoje. Busco meu melhor no meu interior, lidar com o próximo, meu maior desafio, que venho melhorando com o passar dos anos, é uma questão profissional e de sobrevivência, pois precisamos todos, de dinheiro para viver com um mínimo de dignidade...o que não ocorre neste país chamado Brasil, cuja maioria da população é pobre em contraponto a uma minoria que tem tudo. Por isso meu casulo, o mesmo de Emily Dickinson, que serve de morada e transformação, refugio e liberdade das asas, para partir ou seguir seu caminho só. Como estou hoje, ainda com esperanças de um amanhã feliz, embora meu tempo já seja tão pouco, enquanto existo.