quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

...E O FRIO QUE FAZIA



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SOLITÁRIO
 
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbas carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

by Augusto dos Anjos

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

CADA PESSOA COM SUA EXISTÊNCIA


         

           O grande círculo está fechado e eu estou de fora, apenas observando o vento forte, e o ricochetear das ondas, nas pedras do cais. Quem poderia imaginar que após longos anos, fariam um encontro dos 20 anos de formatura...eu já havia me colocado de fora do círculo, o grande círculo que tudo prende e nada solta, apenas deixam ali, os de cá e os de lá. Consigo sorrir para o espelho e ter um sorriso de volta, mesmo que o espelho minta, mesmo que ele se parta em mil pedaços. Mil pedaços foi o que restou de mim, do meu coração, da minha alma.

          Éramos crianças brincando ao redor da fonte, jogando moedas e fazendo pedidos – lembro de só querer concluir o curso, me formar, para então deixar definitivamente o círculo, que já deixei, e me afastar o máximo possível, mais que 20 anos, mais que toda vida, que toda estrada longa da vida (citação sertanejo raiz) . Cinco anos se passaram e não voltam mais, e o tempo se encarregará de passar uma borracha, apenas leves e poucas lembranças, quando por obra do destino cruzar com alguém daquela época, Vivíamos um mundo adulto, como crianças em bancos escolares. Até que foi divertido, afinal todos tínhamos o mesmo objetivo, concluir o curso.

          E por entre uns livros que arrumava no sótão, encontrei o convite da formatura, o que dei para meus pais, que ficaram muito felizes, afinal um filho com curso superior...e nele tinha um pequeno texto, que não foi citado o autor e dizia assim:



Aos colegas


Cada pessoa em sua existência pode ter duas atitudes:

construir ou plantar.

Os construtores podem demorar anos em suas tarefas, mas um

dia terminam o que estavam fazendo. Então, param e ficam

limitados por suas próprias paredes. A vida será sem sentido

quando a construção acabar.

Mas existem os que plantam, Estes, às vezes, sofrem com a

, tempestade, raramente descansam: mas ao contrário do

edifício, o jardim também lhes permite que a vida seja uma

grande aventura.

Os jardineiros se reconhecem entre si, porque sabem que na

história de cada planta, está o crescimento de toda a terra.





          Isto deixou bem claro a nossa relação, não éramos amigos, éramos colegas e só, naquele período de cinco anos, depois no máximo adversários, pois concluído o curso, cada qual seguiu seu destino...


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

20 DE NOVEMBRO - DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

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Diamba

Negro velho fuma diamba
para amassar a memória
O que é bom fica lá longe...
Os olhos vão-se embora pra longe
O ouvido de repente parou


Com mais uma pitada
o chão perdeu o fundo
Negro escorregou
Caiu no meio da África
Então apareceu do fundo da floresta
uma tropa de elefantes enormes
trotando
Cinqüenta elefantes
puxando uma lagoa
– Para onde vão levar esta lagoa?
Está derramando água no caminho
A água no caminho juntou
correu correu
fez o rio Congo

Águas tristes gemeram
e as estrelas choraram
– Aquele navio veio buscar o rio Congo!
Então as florestas se reuniram
e emprestaram um pouco de sombras pro rio Congo dormir
Os coqueiros debruçaram-se na praia
para dizer adeus

by Raul Bopp


ps."Em 1932, Bopp publicou o livro Urucungo – poemas negros, coleção de poesias que buscam retratar a história dos negros no Brasil, desde o sequestro na África até os primeiros anos após a abolição da escravatura. "

 
 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DISSESTE TUDO AO DIZER


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Disseste tudo ao dizer:
 Quando a ausência de mim
Fizer presença em meu ser,
Visitarei a mim mesmo,
Para não me afastar de você.

Quando o peso do dever
Em mim soterrar a alma
Entre os escombros da vida,
Quero flutuar qual pluma
Na leve brisa da calma.

Quando o dizer tiver o poder
De revelar o que não quero,
Paro a pluma, guardo a voz,
Me rebelo no silêncio
Para me manter sincero.

Antes da noção do certo
Se revelar um engano,
Saio do cotidiano:
Adentro em outras rotinas,
Noutros mares vou pescar.

Não quero porto seguro,
Só âncora, vela e mar.
Âncora para ser meu porto,
Vela para me levar,
Mar para, no litoral,
As minhas ondas quebrar.

by Rubem Alves

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CAOS E REDENÇÃO





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"Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação
Nos dias que tem comida, comemos comida com a mão.
E quando a polícia, a doença, à distância ou alguma discussão.
Nos separam de um irmão,
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração.
Mas não choramos à toa,
Não choramos à toa."



by Arnaldo Antunes



 
A hipocrisia nossa de cada dia e o beijo traiçoeiro de Judas nos dizem que o tempo é de dor, esquecimento e falta. Vi o homem de arrasto mendigando um vintém e não tive coragem de me aproximar, pois o pouco que me resta, talvez não consiga pagar minha próxima refeição. Quando olhei em seus olhos de fome e socorro, vi um mundo que desaba a cada tremor de terra, levando de volta aqueles que um dia eram vida, agora terra e pó. Todas as crianças do mundo perdidas nas terras de nunca; nunca o amor, nunca a brincadeira, nunca aprender a ler, ver e ouvir; apenas crianças, sem pais, sem destino e uma única sina: vagar pelas terras secas e improdutivas deste planeta, servindo aos abusadores de almas inocentes. Acordado no pesadelo, percebo as bombas ou a bomba, única e poderosa e destruidora…






"Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto"

by Adriana Calcanhoto



Chegará o dia em que não teremos mais pão, nem para onde ir; dias de sono, sangue e destruição. Alguns conseguirão isolar-se em câmaras subterrâneas, que logo serão contaminadas pelo veneno que escorre pelos rios, pelas matas, penetrando fundo na terra.

Contaram-me uma história de uma linda floresta chamada Amazônia, que não existe mais, ou restam algumas árvores que não conseguiram derrubar, árvores fortes e poderosas, resistindo a tudo e a todos e a todas as formas de destruição. Naquele tempo que existia a Amazônia, tínhamos oxigênio e todos respirávamos, agora pessoas estão morrendo, asfixiadas na falta de ar, de amor, de compaixão. E assim veremos o fim de outra raça na superfície do Planeta Terra.
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"Cada dia me traz com que esperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da esperança...
Mas viver é esperar e se cansar"

by Fernando Pessoa


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

INTROSPECTOJAIR

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50 anos é sim uma boa medida para metade da vida. Hoje quantas pessoas chegam aos 100 anos ? Poucas. Raras. Então estou a passos largos para a morte. Não é pessimismo, é constatação. É fato. E quem foi que falou na melhor idade ? Só se for pra morrer. Mas não posso deixar de constatar meu amadurecimento, que está por um tris com este post. Hoje sei bem o que me satisfaz, e o que não tenho e que não terei nesta passagem in albis pela Terra. Os sonhos guardo todas as manhãs, quando acordo, numa caixinha que vai para o fundo do baú, onde poderei encontrar o silêncio e o isolamento. Distante das tentações da vida e da vida em si. Porque me expor ao Sol, se vou derreter, ou à Lua se posso sair uivando como um lobo. Só sei que nada sei, disse uma vez o filósofo, e eu repito para minha alma, que nada sabe. É o peso do tempo e da idade, que me concedem a maturidade necessária para viver entre os demais, sem que haja atrito, sem que haja morte ou tristeza. Nestes 50 anos não vivi um amor verdadeiro, pois continuo em meu casulo, me protegendo, dos ventos, da sorte e do azar...me protegendo dos olhos que um dia eu me vi através deles e agora é só uma lembrança distante, perdida. Fechado em meu mundo de livros, músicas e silêncios. Não ouço meus passos, flutuo sobre os cacos de louça esparramados por minha cozinha, e não vejo o pão que mofa sobre a mesa, mas vejo a violeta que fica na janela, me olhando e perdendo sua cor, se deixando sugar pelo tempo, pelo calor, pelo desejo de ter cor outra vez...mas depois dos 50 anos começamos a desbotar, a ter pressão alta e operações, deixando cicatrizes pelo corpo imaculado, agora jogado ao tempo para cumprir seu destino, o que resta dele...


"Que venham os anos.
Pretendo comê-los com sabedoria e um pouco de vitamina E."

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.



by Charles Bukowski

Tradução: Manuel A. Domingos