terça-feira, 6 de dezembro de 2016

UM POETA DEIXOU O PLANETA

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Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


by Ferreira Gullar





sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ENTRE AS LÁPIDES


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Dentre todas as Almas já criadas -Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -

Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

by Emily Dickinson
(Tradução: José Lira)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

NO CAMINHO A VIDA PULSA


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Esqueceu a terapia e dormiu até mais tarde, enquanto passava desenho animado na televisão, que ficou programada para ligar. No sono percorreu o caminho até a clínica onde mais cedo ou mais tarde, seria sua residência, ou não. Estava sonhando, estava caminhando entre as pessoas sem ser notado, estava realmente sonhando. Desde a última consulta, a troca de remédios, os dias não foram mais os mesmos. Tudo pode acontecer nos finais de ano, tragédias, muitas tragédias. Encontros. Desencontros. Festas. Todos procurando desesperadamente comemorar, forçando sorrisos e postando no face-book, deixando a comida esfriar, mas mostrando todos os dentes, alguns substituídos, mas a maioria era original. Rolou na cama, e abrindo um pouco o olho esquerdo pode ver o desenho do Pica-Pau, com sua crista vermelha e corpo azul. Voltou a procurar o sono ou tentar lembrar de algo que insistia em esquecer. Esqueceu e voltou a dormir. No caminho para a clínica ouviu uma música, que falava de sofrimento, que sempre sofremos, mas nem por isso se deve desistir.

When your day is long and the night
The night is yours alone
if you're sure you've had enough of this life
Well hang on
Don't let yourself go, 'cause everybody cries
and everybody hurts, sometimes ... (R.E.M.)

A balada ecoou nos tímpanos se perdendo na escuridão do sono e do quarto, onde ainda permanecia esquecido da vida, esquecido do terapeuta. Novos remédios, o corpo precisa se adaptar. Os olhos já entenderam e não lacrimejam mais, sente também uma secura na boca, e o coração palpitar ligeiro, como se tivesse medo de parar...virou para o outro lado na cama, sem acordar desta vez, apenas esqueceu de uma consulta, esqueceu o blog também, apenas sonhava que vivia num mudo virtual, agora poderia procurar os amigos que tinha na rede, e deixar comentários in loco nos posts...acorda com um raio de Sol que atravessou a janela, a cortina, parando nos olhos, vendo um belo brilho ao abri-los e perceber que a vida está ali, a sua espera, do outro lado da janela. Agora é só dar um passo, outro passo, mais outro e assim por diante, até chegar na rua e ver que a vida existe, basta querer, basta acordar, porque sofreremos do mesmo jeito, mas com chances de superar o medo e abraçar o dia e a vida, que pulsa, pulsa, pulsa....

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TRAGÉDIA BRASILEIRA





Resultado de imagem para morta em decubito dorsal vestida de vestido de organdi azul




Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,
Conheceu Maria Elvira na Lapa, – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.


by Manuel Bandeira )

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

RONDÓ DE EFEITO



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Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.

Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.

Escrevi cartilhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...

Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!



by Manoel Bandeira



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

VULGÍVAGA

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VULGÍVAGA
 
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos
o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


by Manoel Bandeira






 
  

terça-feira, 22 de novembro de 2016

NÃO HAVIA MAIS NINGUÉM


Resultado de imagem para fumaça no  iraque de petróleo queimado, crianças com mãos sujas de óleo
 
Não havia mais ninguém, a praça encontrava-se vazia, não houveram aplausos, nem pedidos de bis. Na madrugada que amanhecia, conseguia ver uma Lua que enfrentava um Sol nascente, não querendo ir embora...mas todos já desistiram, e a Lua desapareceu na luz solar. Restos de uma grande festa ou batalha, divide espaço com ele e o vazio da praça. Nem sempre os anjos da guarda estão de guarda, e é justo nestes instantes, que desorientados, nos entregamos a esta orgia desenfreada por sexo, dinheiro e poder. A ordem certa é o poder vir primeiro. Caminha tropego pelas calçadas inundas, pára na frente de uma loja em que os televisores estão ligados, e se fixa numa tela, que contava a história de um país distante, em que o povo vivia dentro de uma guerra, sem participar, apenas serviam de escudo humano. Uma fumaça negra que mudava ao sabor do vento, onde então podia-se ver crianças mostrando as mãos sujas de óleo ou petróleo ou sangue, e juntos mostravam dificuldade de respirar, e uma tosse de moribundo. Pensou, olhando aquela cena, e vendo a praça vazia e imunda, até gostou de ver o que via. Quando volta olhar a televisão, as crianças sumiram mais uma vez no meio da fumaça. Não havia mais ninguém.