terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O SORRISO DA MORTE


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É apenas uma pancada de chuva de verão, logo passa; pensei em minha avó que costumava dizer da rapidez com que a chuva de verão chega e vai embora. Agora, eu , aqui no meio do caminho sinto as primeiras gotas de uma água gelada e logo estou encharcado, com frio e feliz, pois longe do olhos de minha avó, caminhava no meio fio, que formava uma corredeira. Outras crianças apareceram de todos os lados, parecia que aquele meio fio era o rio principal das brincadeiras. Como não gostei da companhia – meu destino é andar só como o Kung Fu de David Carradine – segui com meus passos molhados, observando as árvores, que pareciam bem felizes, talvez porque o vento fosse fraco e a chuva abundante. Pensei: É apenas uma pancada de verão. Com os óculos embaçados tateava a cada passo que dava, quando percebi a água estava em meus joelhos, olhei em volta e estava ilhado, só eu e um mundo de água. Pensei no dilúvio e nos cinco minutos que se leva para morrer afogado. Embora a morte sempre estivesse junto de mim, me seguindo, se esgueirando por entre paredes e postes e pessoas, mas nunca me perdendo de vista. Eu não sabia, até aquele momento em que a água ultrapassava meus joelhos, e eu perdido sem saber para que lado seguir. Foi então que a vi inteira pela primeira e talvez última vez. Não me pareceu assustadora como sempre me pintaram, não tinha uma foice, seu rosto não era uma caveira, e suas vestes não eram negras. Pelo contrário, me pareceu gentil ao indicar um caminho que não conseguia ver, face a água, que a estas alturas passava de minha cintura. Quando cheguei perto, ela me sorriu, pensei: o sorriso da morte. Não tive medo, nem a sensação de enfraquecimento para a morte, pelo contrário, me senti vivo e feliz, pois atravessei aquele mar de água de verão na rua, como um cego, tateando o chão, apenas atendi o chamado da morte, que desapareceu assim que estava numa calçada seguro. Pensei em minha falecida avó, então percebi que não era a morte, mas um anjo, com um largo sorriso, que me trazia mais uma chance de viver e tentar ser feliz.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

É MELHOR FAZER UMA CANÇÃO

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    Elza Soares e Caetano

  • LÍNGUA


  • Gosto de sentir a minha língua roçar
    A língua de Luís de Camões
    Gosto de ser e de estar
    E quero me dedicar
    A criar confusões de prosódia
    E um profusão de paródias
    Que encurtem dores
    E furtem cores como camaleões
    Gosto do Pessoa na pessoa
    Da rosa no Rosa
    E sei que a poesia está para a prosa
    Assim como o amor está para a amizade
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E deixa os portugais morrerem à míngua
    Minha pátria é minha língua
    Fala Mangueira
    Fala!
    Flor do Lácio Sambódromo
    Lusamérica latim em pó
    O que quer
    o que pode
    Esta língua
    (3X)


    Vamos atentar para a sintaxe paulista
    E o falso inglês relax dos surfistas
    Sejamos imperialistas
    Cadê? Sejamos imperialistas
    Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
    E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate
    E Xeque-mate, explique-nos Luanda
    Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
    Sejamos o lobo do lobo do homem
    Sejamos o lobo do lobo do homem
    Adoro nomes
    Nomes em ã
    De coisa como rã e ímã...
    Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
    Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
    Arrigo Barnabé

    Incrível
    É melhor fazer uma canção
    Está provado que só é possível filosofar em alemão
    Se você tem uma idéia incrível
    É melhor fazer uma canção
    Está provado que só é possível
    Filosofar em alemão
    Blitz quer dizer corisco
    Hollywood quer dizer Azevedo
    E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
    Meu medo!

    A língua é minha Pátria
    eu não tenho Pátria: tenho mátria
    Eu quero frátria

    Poesia concreta e prosa caótica
    Ótica futura
    Samba-rap, chic-left com banana
    Será que ele está no Pão de Açúcar
    Tá craude brô, você e tu lhe amo
    Qué que'u faço, nego?
    Bote ligeiro
    arigatô,arigatô
    Nós canto falamos como quem inveja negros
    Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
    Livros, discos, vídeos à mancheia
    E deixa que digam, que pensem,que falem

    by CAETANO VELOSO

    terça-feira, 10 de janeiro de 2017

    NO FUNDO DOS OLHOS


                  Resultado de imagem para O TEMPO

                    Demorei para perceber que não havia mais nada a ser dito, apenas semear as sementes de melão e esperar pela fruta. Haverá um tempo, entre a semeadura e a colheita. O tempo da espera e o tempo da fome. As loucas palavras que deixaram de ser ditas, os olhos que olhavam no fundo dos olhos do outro, que calava-se. Um abismo de silêncios nos manteve afastados, mesmo quando ainda estávamos juntos, e já nos perdíamos...nossos passos para lados opostos, nosso destino sendo traçado e dizendo que não haverá união nem final feliz. Tropeços e quedas e ódios e vazios. A náusea impediu o beijo da morte ou de amor (mas o amor não existe, nunca existiu) . Será ? Sempre negaremos, tudo não passou de um acidente temporal. O tempo gozando de nossa cara, criando expectativas e entregando ilusões.

                   Gostamos de nos iludir, ficar de fora e não se comprometer. Também gostamos de furar fila, entrar antes do outros e somos por demais invejosos. Subornamos e somos subornados, em nome de mais conforto, esquecendo-se do mal provocado para si e os outros tantos milhões de brasileiros, abandonados a própria sorte (ou seria azar?).

                   O corpo virou moeda de troca e interesses e desumanidade e, assim, perdemos nossas filhas para o mundo e nossos filhos aumentando cada vez mais a caótica vida carcerária neste país; onde quem entra ou se aperfeiçoa no crime ou é morto (em menos de 15 dias quase cem mortos nos presídios do norte). As cidades brasileiras nunca viveram um

    período tão perigoso, tanto na rua como dentro de nossas casas, não temos mais segurança, e contamos com a sorte, ou Deus, que estará sempre de braços abertos para

    nós, ou não.

                   Enquanto o mundo se destrói, tento respirar e ficar quieto nesta minha ilha de isolamento e solidão. Por vezes penso não suportar tudo isso ou meu nada ou a falta de teu olhar, que não olhava o fundo dos meus olhos, então me calei.

    segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

    TUDO PASSA




    O ano passou. Talvez rápido demais ou talvez não tenha percebido, encolhido em meu casulo, distante de tudo, distante de todos. Como um estranho no ninho, não podendo ir embora, me afasto, me isolo, não ouço, não vejo, não falo...para minha proteção enquanto isso, o corpo de baile dança no palco, acima de nossas cabeças. A Morte do Cisne. A morte do dia em que cheguei aqui. O ano passou, mas não passou minha angústia, minha insonia e meu coração em pedaços. Sentado em meu canto, lutando com a cibernética instalada para eu trabalhar ou para me espionar...cortaram a música, tenho medo de perder meus dedos no teclado do computador, mas sigo adiante, dando meus dedos a tapa ou à guilhotina que Maria Antonieta perdeu a cabeça. O ano passa e estamos no Natal, aniversário de Cristo, mas ninguém lembra disso, apenas das festas dionisíacas, com muita bebida, comida e falta de fé. O ano passa, governos são derrubados, e os que tomam conta, se apresentam bem piores, mais sanguinários, mais cruéis e burgueses. E o povo ? O povo passa fome o ano inteiro e e´sacrificado como o aniversariante do Natal, o ano inteiro. O ano passa e todos me abandonaram a minha própria sorte ou azar. Os amigos distantes se ocupam com os seus e eu gostaria de estar no ventre de minha mãe, como um canguru, como um feto protegido pela placenta, sem pensar, sem sonhar. Pura proteção tenho certeza, minha mãe não me abortaria, não me abortou e estaremos juntos no Natal, abraçados, vendo o ano que passa, este ano que passou.

    quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

    TRISTE POSTAGEM

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    Sempre achei triste postagem sem comentário. Depois li: faça um blogueiro feliz, comente. Hoje acostumei a viver só no mundo e na internet. Estamos ocupados demais com o que nos cerca. Está tudo muito veloz, embora a rotação do planeta não esteja. “Quem é o inimigo, quem é você ?” Enquanto isso em Alepo, um resto de cidade na Síria, continua matando seus moradores, destruindo o que ainda está de pé e desplantando os jardins que eram cultivados dentro de casa, por crianças inocentes. No Brasil a morte banalizou, pisamos em cadáveres na rua, falamos ao celular enquanto dirigimos, jogamos lixo em qualquer parte e não amamos, nem respeitamos o próximo. No meu mundo real a dor é real. No mundo virtual, recebemos o esquecimento rápido, face as novas e últimas novidades, que tem pressa, urgência para impactarem e desaparecerem como se nada fosse feito. Enquanto isso falamos de amor, dias felizes e memórias vagas. Falar no sentido metafórico, não nos falamos, apenas postamos e esperamos que alguém pare em nosso blog e diga olá, que belo, que bom...”mas as pessoas na sala de jantar São ocupadas em nascer e morrer” . Enquanto eu choro minha pitangas egocêntricas, Alepo caminha a passos largos para mais um genocídio e a destruição total.




    DESCE O CREPÚSCULO

    Resultado de imagem para CREPÚSCULO, FENOMENO NATURAL

     Cocktail Party


    Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
    Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez
    de se matarem, fazem poemas:
    Estou triste porque vocês são burros e feios
    E não morrem nunca…
    Minha alma assenta-se no cordão da calçada
    E chora,
    Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
    Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês
    uns amores.
    Na minha cara há um vasto sorriso pintado a
    vermelhão.
    E trocamos brindes,
    Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
    Somos democratas e escravocratas.
    Nossas almas? Sei lá!
    Mas como são belos os filmes coloridos!
    (Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
    Desce o crepúsculo
    E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
    em todas as poças d’água,
    Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!
     
    by Mario Quintana

    quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

    PÚBLICO E PRIVADO


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    Segunda-feira de um dia no hemisfério Sul

    Aos que tem um trabalho, cuidem bem dele, pois o exército de reserva, nunca esteve com tantos cidadãos, e nunca estivemos com uma percentagem de povo vivendo na linha da miséria, 30% de 200 e tantos milhões de brasileiros. E eu tenho meu trabalho e agradeço a Deus por isso... pois era uma segunda-feira de fim de primavera, expectativa para o verão. Será o mais quente dos últimos tempos ? Não sei, tudo indica, os Pólos estão derretendo. Estou chegando no trabalho, e começa o atendimento determinado horário, com algumas pessoas na frente do prédio esperando para ver suas coisas. Segunda-feira eu quase um zumbi chegando no prédio, absorto, em silêncio; eis que passando pelas gentes ouço meu nome sendo dito em voz alta e firme: Bom dia Jair, não se usa mais dizer bom dia ? Pausa Dramática. Paro e acordo, literalmente. Uma senhora que estava junto das pessoas que eu passei no meio está me olhando inquisitiva, falando em tom alto, como se eu não quisesse dar bom dia. Olho pra ela, e peço desculpa, não a vi, alias eu não estava vendo ninguém. Então acordo assim, como se estivesse cometendo um pecado ao não vê-la, me repreendendo, me chamando a atenção - ainda não lembro quem é esta senhora. Poderia lhe dar um milhão de explicações por meu ato falho, em não dar bom dia. Mostra meu lado mal educado também, completamente diferente do eu que atende as pessoas, as informa, e não se satisfaz em dizer não, procura sempre uma saída, um encaminhamento. Minha mãe me ensinou assim, quando alguém pede uma informação, devemos nos esforçar para dar o melhor da gente, pois poderíamos ser aquela pessoa perdida...fiquei um tanto constrangido, parado, e incrédulo, no portão, que permanecia fechado para eles, e não para os funcionários. Eu era um funcionário. Segui adiante, com aquele pensamento martelando durante todo o dia. Em compensação, não vi mais aquela senhora, ela não apareceu na minha sala e pude atender bem, como de costume, as pessoas que ali aportam.

    "Nosso dia vai chegarTeremos nossa vez
    Não é pedir demais:
    Quero justiça
    Quero trabalhar em paz
    Não é muito o que lhe peço
    Eu quero um trabalho honesto
    Em vez de escravidão"
    by Legião Urbana