terça-feira, 10 de julho de 2018

MUITO ALÉM DA MINHA MORTE



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Edith Piaf


Ne me quitte pas

Não me deixes mais
É necessário esquecer
Tudo pode ser esquecido
O que ficou pra trás
Esquecer o tempo
Dos mau entendidos
O tempo perdido
Saber como
Esquecer as horas
Que matavam às vezes
A golpes de porque
O coração da felicidade
Não me deixes mais

Te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de um país
Onde não chove
Revolverei a terra
Muito além da minha morte
Para cobrir o teu corpo
De ouro e luz
Farei um reino
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E tu reinarás
Não me deixes mais

Não me deixes mais
Que eu inventarei
Palavras sem nexo
E tu compreenderas
Pra falar
De amantes
Que por muitas vezes
Sentiram seu próprio coração queimar
Eu vou te contar
A história de um rei
Que morreu tão triste
Por nunca te encontrar
Não me deixes mais

Dizem que é comum
Renascer o fogo
De um velho vulcão
Que não arde mais
Também já se viu
Em terras destruidas
Renascer mais trigo
Que no melhor abril
E pra se inflamar
Uma tarde no ar
O vermelho e o negro
Não se casam jamais
Não me deixes mais

Não me deixes mais
Eu não vou chorar
Não vou mais falar
Vou ficar em paz
Quero só te ver
Dançar e sorrir
Quero te ouvir
Cantar e falar
Deixa-me existir
À sombra da tua sombra
À sombra da tua mão
À sombra do teu cão
Não me deixes mais

by Edith Piaf


segunda-feira, 9 de julho de 2018

CANSADO DE CORRER NA DIREÇÃO CONTRÁRIA


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Cazuza

O TEMPO NÃO PÁRA

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha no palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não para

by Cazuza/ Arnaldo Brandão

sexta-feira, 6 de julho de 2018

MAS ESSA DOR DA VIDA...


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SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
 
by Alvarez de Azevedo

ps.  Não estou deprimido, mas não estou alegre, deve ser um estado normal da natureza humana. Ao acordar agradeço a Deus estar vivo, ao mesmo tempo entrego meu dia à Ele, e ele tem resolvido minhas dúvidas e angústias...mas às vezes o dia é muito duro, e a dor insuportável. Ah se eu fosse um poeta romântico, já estaria morto aos 20 e poucos anos, mas estou com 51 e não morri ainda, e este poema diz  o que gostaria agora, mas não posso fazer minha mãe sofrer, ela já sofreu tanto, não merece mais um filho morto. Por ela e um medo da dor ´que mantenho me vivo. Não estou deprimido, apenas observo a depressão em forma de uma imensa nuvem negra, que pouco a pouco se aproxima de mim...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

NÓ DE GRAVATA


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Um nó na garganta, um aperto no peito e os olhos molhados, lacrimejavam como se não fossem lágrimas, mas gritos líquidos. Precisava de um pouco de açúcar no chá, adoçar aquele dia tão sem sabor, numa leve tendência ao amargo. À medida que os ponteiros do relógio na parede do corredor andavam, sempre com um pequeno clic, mas audível, o tempo soprava e se arrastava pela casa, na esperança de encontrar uma porta aberta, até uma janela. Mas tem a casa fechada, como seu corpo. Nada poderá me atingir, pensava na canção sobre São Jorge. Salve Jorge. *'We only said goodbye with words I died a hundred times You go back to her And I go back to black' Ouviu as últimas palavras da música, arrepiou-se, pensou em Amy, morta. Escorreu uma lágrima gritando, e o nó na garganta só conseguia assumir que voltária para a escuridão. Percebeu a escuridão dentro da casa, por isso a dificuldade de encontrar uma saída. Completamente só dentro, fechado dentro...é só abrir os olhos, os dá alma, para ver através da cegueira da ignorância que provocamos em nós mesmos. Ele sabia da sua porcentagem de culpa. O isolamento parecia uma boa saída, ou sumida dos olhos e aos poucos do coração de quem gostava, gosta. O mesmo nó na garganta de quando olhava para trás e via a antiga cidade sumindo dos olhos, o amor também. **'Arde um toco de vela amarelada', pensou no poema. Seria seu único bem que sobrou, o corredor escuro e a solidão ? O nó na garganta, como uma gravata amaldiçoada, inicia o estrangulamento, assim que ele abriu a janela, chegando a ver o Sol lá.


*
Nós apenas dissemos adeus com palavras
Eu morri umas cem vezes
Você volta para ela
E eu volto para a escuridão

 by Amy Winehouse (Back to black)

**
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
 Foram levando qualquer coisa minha.


Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
 Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.


Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
 Não haverão de arrancar a luz sagrada!


Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca


 by Mário Quintana


quarta-feira, 4 de julho de 2018

MARCHA LENTA

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Nem tudo está perdido, embora nada leve a crer numa cura. O dia gris reflete um pouco dessa descrença no dia de hoje, mas nada que um doce não renove as esperanças. Os passos lentos, como num funeral, permite que se veja o que sempre se passou rápido, sem tempo para apreciar. O jardim da casa amarela pode ser apreciado nesse passo lento, tantas flores, folhagens, árvores. Com uma leve parada pode-se observar o rio que passa pela cidade, no seu ritmo com pequenos barcos de pescadores. Nem tudo está perdido, pensou, ao ver um cavalo negro com suas patas dianteiras para cima, lembrou filmes de faroeste antigo e lentamente continuou sua marcha lenta. Lentamente adentrou a Igreja Matriz do lugarejo, não ajoelhou-se por estar prejudicado, ficou em pé fazendo as orações, agradecendo e entregando tudo, sua vida inclusive à Deus. O silêncio e a tranquilidade dentro da igreja renovam sua esperança, de que neste dia gris, brotará em Sol a indicação do caminho certo, e nem tudo estará perdido

terça-feira, 3 de julho de 2018

MARCHA FÚNEBRE


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Como passos lentos que acompanham um funeral, nas alamedas onde crescem livres os ciprestes, flor de cemitério, adentro o cemitério para fugir dessa realidade caótica e triste que nos rodeia. O silêncio dos mortos, eles não fazem mal, dizia meu falecido avô, os vivos sim. Costumam cortar corações e até quebrá-los, como se fossem de vidro. Um amor de vidro que acabou. Jaz sob a lápide fria, um corpo que não existe mais. Agora sobre a lápide, um corpo ainda quente debruçado sobre a fria pedra, lamenta, chora, sofre, mas restou vivo, podendo acordar para a vida todos os dias… Caminhar, mesmo em marcha fúnebre, doem os joelhos, talvez a idade que avança rápido, seja a vida de jogador de handebol na jovem adolescência, ou a alma que entrega-se, começando pelo caminhar, pelo não caminhar. Oh escadas que não somem, só aumentam, como um grande labirinto de escadas, descer, subir, descer, subir, descer ad infinitum… Não foram por todas as vezes que ajoelhado pedi e agradeci a Deus, nem os milhos do castigo. Pobres joelhos que um dia, jovens, ditavam o ritmo rápido da marcha...hoje, marcha fúnebre.



segunda-feira, 2 de julho de 2018

PRECISO ME ENCONTRAR

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Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

by Cartola