segunda-feira, 20 de março de 2017

JORGE LUIS BORGES E A CEGUEIRA

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Jorge Luis Borges
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Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.

Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.

O sr. já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem vai me molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém lhe ameaça de morte, você não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.
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ps. O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985.

ps2. Estou travando uma batalha com a cegueira que tomou os olhos de minha mãe. Minha mãe sofre de diabetes e faz tratamento na Saúde Pública, mas não há oftalmologista, ou há, mas se leva anos, eu disse anos, para uma consulta. Minha mãe estava na fila, mas não suportei ver seu estado, que sobrevivendo de um AVC fraco, foi-se a visão e veio uma profunda depressão. Catarata nos dois olhos...tive de procurar clínica e médicos particulares, com bastante dificuldade, mas nada importa mais que a minha mãe me ver (egoísmo meu) e ver sua vida, que pulsa naquele coração generoso. Existe a possibilidade de reverter esta situação, embora seus olhos estejam tomados de catarata, um dos exames verificou que não há prejuízo nos olhos, podendo fazer a cirurgia.

2 comentários:

  1. Jorge Luis Borges, o grande! Gostei muito de ler parte da entrevista sobre a cegueira, vou procurá-la no Youtube.
    Quanto à sua Mami, que bom, Jair, você falou em 'catarata', eu pensei que fosse outra coisa, uma degeneração. Meu amigo, catarata tem jeito, sim! Ela ficará boa! E que bom. fico muito feliz.
    Grande abraço, tudo vai dar certo! Uma feliz semana.

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    1. Minha querida amiga Tais, Jorge Luis Borges, o grande...uma entrevista tão coerente com o que conheço e sei de sua obra e vida. Obrigado querida amiga, por aportar por aqui, fez um blogueiro feliz...esta semana é para fazer a cirurgia de catarata, graças a Deus. Uma doença degenerativa não, além do tempo de vida, mas ela tem problema nos ossos e articulações, difícil andar, sem falar do coração, ela toma alguns remédios por dia, mas agora, pra mim é a questão de ver, preciso que ela me veja, quero uma vez na vida ser a luz dela, já que toda a minha vida ela é minha luz. Obrigado por acarinhar este amigo tão ausente, por vezes. Será uma semana feliz. Carinho respeito e abraço.

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